sábado, fevereiro 13, 2010

carnaval

No carnaval sempre tenho a sensação de que o mundo inteiro se diverte, menos eu. Talvez pela obrigação de felicidade que a data exige, talvez por não suportar a idéia de intensidade condensada; o fato é que no carnaval me sinto extremamente paulistana. Enquanto os outros jogam serpentina e o mundo se exacerba, a data me traz um desejo enorme de ficar na minha. Quietinha. Queria eu gostar de carnaval e entrar em sintonia com a maioria, vestir a fantasia... Mas minha vida de atriz já me deixa brincar de ser um outro no dia a dia. E, escorpiana, carrego sempre nas cores com que pinto esses dias... por isso, talvez, no carnaval eu fique cinza como o céu da minha cidade.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

membrana

Aquela mulher tinha as mãos finas. Mãos macias de pouco uso doméstico. A tinta do esmalte durava muito nas unhas daquela mulher. Ela não era dessas mulheres que não faziam serviços de casa por pura inconsequência ou futilidade; tinha a sorte de nunca ter precisado fazê-los... Alguém sempre os fazia por ela: de empregada doméstica ao próprio marido. Era uma mulher que passava longe do cloro, escovão ou sabão em pó. Também não tinha talento com a jardinagem, as plantas acabavam morrendo se fossem responsabilidade dela. Não sabia como regá-las e acabava por reunir todos os vasos no quintal para que a chuva se encarregasse de molhá-los.
Já disse que era uma mulher de unhas feitas. Era, também, uma mulher que cheirava bem, perfumada, engomada.
Mas essa mulher havia de comer feijão todos os dias! Se esquecia dos grãos, do ferro de cada dia, seus pés desprendiam do chão e, essa mulher, saía voando. Quem a via condenada de tal forma ao feijão, entendia que os gestos delicados daquela mulher não se tratavam de frescura; eram condinação da vida etérea a que ela pertencia. E olhando atentamente a mulher, o coração se enchia de dó e de respeito.

sábado, fevereiro 06, 2010

eu passarinho


Amo a palavra pássaros. Passarinho fica ainda mais bonitinho, leve e fugaz. Pajaros, pajaritos. No dia de hoje, pousando perto de mim, parecem que existem apenas pra me deixar feliz. E eu, existencialista, devolvo minha frase preferida, "eu passarinho".

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

eu por Renata Velguim

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

livro

Quando eu era criança, tinha a certeza de que as personagens dos livros depediam da minha leitura para existirem. Se por acaso passava mais de dois dias sem voltar ao livro, a situação me afligia por deixar suas criaturas presas ao contexto daquele capítulo. Era como se elas existissem e a minha não leitura prendia suas vidas ao momento em que eu parasse de ler. Imaginava suas vidas altamente sacrificadas e sem graça por culpa minha. Quando acontecia de não engatar a leitura, uma culpa enorme pairava sobre mim: sofria pela prematura morte de tédio que acometeria meus heróis.
Mas o melhor da minha infantil vida de leitora era a sensação de completude que cada livro me trazia. Vivia plenamente num outro planeta,em outro contexto por algumas horas do dia. E daí, a vontade de encontrar o livro e saborear uma outra vida me enchia de entusiamo.
Até hoje me sinto assim, plena quando esse tipo de encontro acontece. Quando ler um livro se parece mais com viver um livro.

segunda-feira, janeiro 25, 2010

cadeiras

Sentada na cadeira que vale 600 reias sem um tostão furado no bolso.
No quintal, a velha cadeira de palha desmoronou; perdeu a cor e derrubou a última pessoa que ousou sentar por ali.
O casal usando uma única cadeira, um no colo do outro, quebrou o assento preto de pano.

Bob Wilson faz coleção de cadeiras e eu também gosto delas. Cadeiras parecem gente e às vezes padecem.

segunda-feira, janeiro 18, 2010

ponto final

um pequeno amor

A menina percebeu que aquele beijo não era seu. Gestos, palavras, olhares e apelido carinhoso não eram dela e nem eram pra ela. Eram pra qualquer uma. Qualquer uma que coubesse na agenda compromissada dele, qualquer uma que quisesse ouvir de perto a voz melodiosa daquele homem. Ela, então, entendeu: alguns homens sofrem de amor a si mesmos. E um homem assim jamais poderia ser seu. Seu amor era religioso e devocional. Foi o último capítulo de uma história longa e difícil, com um final travestido de infeliz ( porque era um presente livrar-se de um romance assim). Agradeceu um pouco doída, peito ainda apertado. Iria passar. E ainda havia o grande salto a se dar - para bem longe do homem de palavras e poesias fáceis.

quinta-feira, janeiro 07, 2010

2 ou 1

Quando parece que se esgota o que se pode saber de outra pessoa, quando se conhece cada poro de determinada pessoa, quando se sabe o número de linhas que a testa dela enruga para exprimir cada sensação, quando se conhece o cheiro do outro ( e se reconhece os passos desse outro pelas narinas - como faro de cachorro ), quando não se sabe mais se é você ou o outro que gosta de adoçar com mel o café com leite, quando se olha nas prateleiras e não se lembra mais de quem era determinado livro em vida de solteiro, quando seu corpo se ergonomiza ao sono do outro, quando o sapato largado no chão vira armadilha fácil e irritante, quando o espelho amanhece escrito de lápis de olho azul brilhante como presente de amor, quando as escovas de dentes amanhecem juntas, quando se divide IPVA e IPTU, quando o Natal é fracionado entre famílias, quando tudo isso acontece e ainda assim... - o grande susto - SE NOTA O OUTRO COMO OUTRO ( diferente e independente de você ). E se experimenta o amargo - o grande trote - porque te ensinaram errado: a gente é um, embora queira ser dois. E de repente o amargo se atenua porque a sensação de ser um só, livre e original, se torna doce.

terça-feira, dezembro 22, 2009

fato

Não sei mais escrever.
Os últimos meses e posts revelam essa realidade...
Estou seca das palavras...

sonho

Sonhei com algo tão violento que, de alguma forma, apaguei da minha cabeça. Tento em vão lembrar do sonho. Meus mecanismos de defesa apagaram qualquer rastro do que poderia ter sido o sonho mais violento da minha vida. Mas sei que ele existiu. Sei que os últimos acontecimentos têm me pedido agressividade. E para isso o sonho se fez, me salvou e foi esquecido. Talvez o personagem central desse sonho não fosse eu. Talvez fosse um velho; acho que era. Lembro que havia um portãozinho baixo de grades de ferro e essa frágil barreira separava o possível velho do acontecimento violento. O sonho era cruel e só isso eu sei. Assim como a gente cria doenças, envelhece sem perceber; a violência se fez dentro de mim. E havia o pior, a escória do mundo, o que dói, o que não se fala, nem se olha... mas eu não lembro. Fechei os olhos pra esse sonho como fecho os olhos para não ver certas cenas de filme no cinema. Mas esse filme era meu, criação minha e, mesmo não lembrando, eu respondo por ele.

sábado, dezembro 05, 2009

quatro

Existe um enorme abismo entre VOCÊ e VOCÊ: entre VOCÊ que é MEU e VOCÊ que é SEU. Quando refletidos no espelho somos QUATRO.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

o menino

O menino, então, decidiu não dormir mais.
Contrariado, maldizia a noite e fosse quem lá tivesse inventado o sono.
Enquanto sua mãe o vestia com mais um pijama sem graça, seu protesto se fazia: "Não é justo. A vida me agita o dia inteiro! Não quero dormir! Não tô com sono!!". Filosofava o menino.
Sua mãe, em inúmeras tentativas inúteis, buscava mostrar um sentido a hora de fechar os olhos. Inventou caderno dos sonhos, pijama do Homem Aranha, massagem nos pés, histórias contadas, música de ninar... mas a teimosia do menino sem sono vencia e quando a noite vinha, ele perambulava pela casa sem medo de escuro.

Esse menino cresceu e continuou a achar que dormir é perder tempo!
Embora durma, acredita piamente na vida sem intervalos e no sonhar acordado.

Crescido, arrumou uma namorada que adora fechar os olhos e embarcar dentro de si. Dorme até em mesa de bar.

quarta-feira, dezembro 02, 2009

outros

que bonita essa Tiê...

sexta-feira, novembro 20, 2009

"tema para um pequeno conto"

"um homem chegou por acaso, viu uma gaivota e, por pura falta do que fazer, matou a gaivota..."

usufruto - tema para um pequeno conto

olho pra trás e a cabeça insiste em transformar minhas últimas escolhas em pesadelo.

de olhos abertos vejo os detalhes que ignoro quando visto minhas asas brancas.

a sereia se mostra inteira e mata o homem por puro tédio, por pura falta do que fazer.

por desejar tão grande e vermelho; ignoro mentiras, ausências e pequenos desprazeres.

quero ficar com o sabor genuíno do que um dia projetei em ti. sei que não é verdade, sei que o encanto é meu. vem de mim e não de ti.

como "vera gata", brinco de usufruir você e jamais usar-te.

inventando uma realidade, distorço o que é terra dentro de mim.

acabo em ansiedade por saber que meus pés, assim, se distanciam muito do chão.

segunda-feira, outubro 26, 2009

netuno

No meio dos outros, no meio do que é dos outros encontro pistas do que deixei inscrito em cavernas antigas.

Não é meu, nem nunca foi.

Com tinta ocre gravo a história que invento pra mim.

É dos outros. É dela, não é meu. É dele, não é meu.

Insisto em pegar um pedaço que me é oferecido e esqueço da parte que realmente me cabe.

Fico tonta com o que não me pertence.

Em meio a tanta alteridade, percebo que sou dona de tudo!

E que essa história escolhi pra mim desde os tempos em que se pintava em cavernas e o bicho morria mais fácil pra gente comer.

quarta-feira, outubro 21, 2009

bobos de amor

Jamais poderia ter um cão. Sou boba de amor e cachorros também são. Nos encantaríamos um pelo o outro, amaríamos o nosso amor e nossa capacidade de amar. Devotados a nós mesmos, não mais sairíamos de casa. Lamberíamos um ao outro e seríamos felizes com modestas quantidades de ração porque, apaixonados, comeríamos pouco e largaríamos o osso.

a gata que ri

Giulietta se funde às minhas pernas, me diz boa noite e sorri seu sorriso de gata.

quarta-feira, outubro 14, 2009

lacuna

Na verdade já sabia o final da história desde que resolveu colocar os pés naquelas águas. Os enredos repetiam-se, mas os pés teimavam em continuar ali. A água quente seduzia-lhe. "Depois não diga que não te avisei", dizia pra si mesma. Mas às vezes a vida não é tão exata e a água não é tão límpida. Às vezes se gosta do azedo. E o escuro parece a melhor saída. Mas se eu tivesse uma filha com os pés molhados por essas águas, diria:



(Eu não tenho filhos e a lacuna se faz).

quarta-feira, outubro 07, 2009

casamentos

Era um casamento na praia. Chegamos cedo. "Vamos andar pela praia?". Pés paulistanos sedentos de areia e sal do mar. Fomos. Noiva se arrumando. Noivo arrumando a festa. Comemos queijo coalho no palito. Silêncio. Casamento dos outros. De repente começou a chover. Chovia. Chuva grossa e gelada. Eu e você embaixo de um guarda sol. Completamente ilhados. Impossível atravessar a tempestade. Parados no que restava de areia fofa vendo a chuva endurecer os outros grãos. Silêncio. Nos casamos de novo. Mas agora sem a ilusão que uma cerimônia de casamento cria.