terça-feira, dezembro 22, 2009

fato

Não sei mais escrever.
Os últimos meses e posts revelam essa realidade...
Estou seca das palavras...

sonho

Sonhei com algo tão violento que, de alguma forma, apaguei da minha cabeça. Tento em vão lembrar do sonho. Meus mecanismos de defesa apagaram qualquer rastro do que poderia ter sido o sonho mais violento da minha vida. Mas sei que ele existiu. Sei que os últimos acontecimentos têm me pedido agressividade. E para isso o sonho se fez, me salvou e foi esquecido. Talvez o personagem central desse sonho não fosse eu. Talvez fosse um velho; acho que era. Lembro que havia um portãozinho baixo de grades de ferro e essa frágil barreira separava o possível velho do acontecimento violento. O sonho era cruel e só isso eu sei. Assim como a gente cria doenças, envelhece sem perceber; a violência se fez dentro de mim. E havia o pior, a escória do mundo, o que dói, o que não se fala, nem se olha... mas eu não lembro. Fechei os olhos pra esse sonho como fecho os olhos para não ver certas cenas de filme no cinema. Mas esse filme era meu, criação minha e, mesmo não lembrando, eu respondo por ele.

sábado, dezembro 05, 2009

quatro

Existe um enorme abismo entre VOCÊ e VOCÊ: entre VOCÊ que é MEU e VOCÊ que é SEU. Quando refletidos no espelho somos QUATRO.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

o menino

O menino, então, decidiu não dormir mais.
Contrariado, maldizia a noite e fosse quem lá tivesse inventado o sono.
Enquanto sua mãe o vestia com mais um pijama sem graça, seu protesto se fazia: "Não é justo. A vida me agita o dia inteiro! Não quero dormir! Não tô com sono!!". Filosofava o menino.
Sua mãe, em inúmeras tentativas inúteis, buscava mostrar um sentido a hora de fechar os olhos. Inventou caderno dos sonhos, pijama do Homem Aranha, massagem nos pés, histórias contadas, música de ninar... mas a teimosia do menino sem sono vencia e quando a noite vinha, ele perambulava pela casa sem medo de escuro.

Esse menino cresceu e continuou a achar que dormir é perder tempo!
Embora durma, acredita piamente na vida sem intervalos e no sonhar acordado.

Crescido, arrumou uma namorada que adora fechar os olhos e embarcar dentro de si. Dorme até em mesa de bar.

quarta-feira, dezembro 02, 2009

outros

que bonita essa Tiê...

sexta-feira, novembro 20, 2009

"tema para um pequeno conto"

"um homem chegou por acaso, viu uma gaivota e, por pura falta do que fazer, matou a gaivota..."

usufruto - tema para um pequeno conto

olho pra trás e a cabeça insiste em transformar minhas últimas escolhas em pesadelo.

de olhos abertos vejo os detalhes que ignoro quando visto minhas asas brancas.

a sereia se mostra inteira e mata o homem por puro tédio, por pura falta do que fazer.

por desejar tão grande e vermelho; ignoro mentiras, ausências e pequenos desprazeres.

quero ficar com o sabor genuíno do que um dia projetei em ti. sei que não é verdade, sei que o encanto é meu. vem de mim e não de ti.

como "vera gata", brinco de usufruir você e jamais usar-te.

inventando uma realidade, distorço o que é terra dentro de mim.

acabo em ansiedade por saber que meus pés, assim, se distanciam muito do chão.

segunda-feira, outubro 26, 2009

netuno

No meio dos outros, no meio do que é dos outros encontro pistas do que deixei inscrito em cavernas antigas.

Não é meu, nem nunca foi.

Com tinta ocre gravo a história que invento pra mim.

É dos outros. É dela, não é meu. É dele, não é meu.

Insisto em pegar um pedaço que me é oferecido e esqueço da parte que realmente me cabe.

Fico tonta com o que não me pertence.

Em meio a tanta alteridade, percebo que sou dona de tudo!

E que essa história escolhi pra mim desde os tempos em que se pintava em cavernas e o bicho morria mais fácil pra gente comer.

quarta-feira, outubro 21, 2009

bobos de amor

Jamais poderia ter um cão. Sou boba de amor e cachorros também são. Nos encantaríamos um pelo o outro, amaríamos o nosso amor e nossa capacidade de amar. Devotados a nós mesmos, não mais sairíamos de casa. Lamberíamos um ao outro e seríamos felizes com modestas quantidades de ração porque, apaixonados, comeríamos pouco e largaríamos o osso.

a gata que ri

Giulietta se funde às minhas pernas, me diz boa noite e sorri seu sorriso de gata.

quarta-feira, outubro 14, 2009

lacuna

Na verdade já sabia o final da história desde que resolveu colocar os pés naquelas águas. Os enredos repetiam-se, mas os pés teimavam em continuar ali. A água quente seduzia-lhe. "Depois não diga que não te avisei", dizia pra si mesma. Mas às vezes a vida não é tão exata e a água não é tão límpida. Às vezes se gosta do azedo. E o escuro parece a melhor saída. Mas se eu tivesse uma filha com os pés molhados por essas águas, diria:



(Eu não tenho filhos e a lacuna se faz).

quarta-feira, outubro 07, 2009

casamentos

Era um casamento na praia. Chegamos cedo. "Vamos andar pela praia?". Pés paulistanos sedentos de areia e sal do mar. Fomos. Noiva se arrumando. Noivo arrumando a festa. Comemos queijo coalho no palito. Silêncio. Casamento dos outros. De repente começou a chover. Chovia. Chuva grossa e gelada. Eu e você embaixo de um guarda sol. Completamente ilhados. Impossível atravessar a tempestade. Parados no que restava de areia fofa vendo a chuva endurecer os outros grãos. Silêncio. Nos casamos de novo. Mas agora sem a ilusão que uma cerimônia de casamento cria.

segunda-feira, setembro 21, 2009

eu era ar e tempo

Hoje a fala-poema de Stela do Patrocínio fala mais e melhor por mim:

Eu era ar e tempo
Eu era ar e tempo, espaço vazio, tempo
Eu era ar e tempo, espaço vazio

Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo
E gases puro, assim
Eu era ar e tempo

Eu não tinha formação
Não tinha formatura
Não tinha onde fazer cabeça
Fazer braço, fazer corpo
Fazer orelha, fazer nariz
Céu da boca, falatório
Fazer músculo, fazer dente

Eu não tinha onde fazer nada dessas coisas
Pensar em alguma coisa
Ser útil, inteligente, ser raciocínio, fazer cabeça
Não tinha onde tirar
Eu era espaço vazio

Eu não sei como é que pode formar uma cabeça
Um olho enxergando, nariz respirando
Boca com dentes
Orelhas ouvindo vozes
Pele, carne, ossos
Altura, largura, força
Pra ter força
O que é preciso fazer

Tomar vitamina
É preciso vitamina.

domingo, setembro 20, 2009

minha resposta sobre o que é paixão

Era possível estender cada micro esfera de segundo prestando atenção nos rastros de sua presa. Passarinho dentro da boca. Tentativa desesperada de bater asas dentro do pescoço do predador, coração em disritmia.

quarta-feira, setembro 16, 2009

homens

Era a única garota com seu pai, no meio de tantos pais que levavam seus filhos-homens pelas mãos. Na grande fazenda havia um local onde se treinava tiro. E os pais-comunistas, guerrilheiros de outrora, sabiam que uma criança também deveria preparar-se para a revolução. "Assim como os filhos de Lamarca!".
Foi naquele dia que percebeu, ainda menina de oito anos, algo muito além dos ideais revolucionários.
A menina que tinha estilingue e camisa do flamengo, notou de repente que a gola decotada de sua blusa azul royal deixava seu ombro esquerdo pelado, completamente à mostra.
O toque do algodão azul na sua pele, a cor moreno-férias de seu ombro fizeram com que ela percebesse o óbvio: não era igual a eles. Homens ou meninos, ela era diferente de todos.
Passou então a prestar mais atenção na sensação de sua pele descoberta do que na aula de tiro. Sentia-se linda! Plena. Feminina. Exibia, orgulhosa, seu ombro esquerdo. Nada era intencional, nem descabido. Era só a percepção de sua sensualidade, de sua feminilidade, de sua diferença entre todos. E a partir daquele dia, começou a olhar o sexo oposto de modo enviesado.
O gênero masculino lhe interessava muito e já entendia que um dia o desejaria; mas aí seria não só com o ombro, mas com o corpo inteiro. Homens, para ela, era uma questão de espiritualidade. E o amor matéria de salvação.

quarta-feira, setembro 09, 2009

saída da escola

As duas irmãs voltavam juntas da escola. O percurso era curto, mas libertador. Fetiche de independência andar na rua sem adultos, ainda mais quando se tem 10 e 12 anos. Passavam na venda de doces; compravam chicletes e pirulitos que tingiam o céu da boca de azul. Atravessavam ruas, observavam semáforos, desviavam de olhares invasores e tropeçavam. Como tropeçavam! Todos os dias, várias vezes cada uma. Contavam o número de tropeçadas. E não eram propositais. Eram os pés tortos que davam rasteiras. Eram seus corpos que davam um jeito de fincar raíz no concreto, fazer com que as duas irmãs olhassem o asfalto por onde pisavam. Porque as cabeças das duas estavam em outro lugar. Voavam em nuvens, desligando-se dos ossos que pisavam o chão.

terça-feira, setembro 08, 2009

jeito de gente

Como água assumia outras formas. Se moldava à arquitetura alheia: ganhava traços, escadas, cores e janelas que não eram suas. Visitava o gosto dos outros por pura compaixão. Amava demais o que era humano e se esquecia que, ela própria, não era bicho. "Gosto de pessoas simples", pensou. Mentia. Queria ela poder não enxergar a si mesma em tudo o que via. "Vejo demais". E não era mentira, podia ver mesmo a carne sendo digerida em barriga alheia. Sabia do estômago do mundo e de lá, vez em quando, as coisas fediam. Água turva.

sábado, agosto 29, 2009

ratos

Na mesma hora estamos andando por baixo da cidade: eu na linha verde e você na linha azul.

sexta-feira, agosto 28, 2009

cadeia alimentar

Giulietta e a mariposa não me deixam dormir. A gata corre atrás do objeto voador tropeçando em tudo o que está à sua frente e atrapalha meu sono. A mariposa faz um barulho de presa indefesa, juntando todas as suas forças para sobreviver ao ataque. Como amanhã tenho que acordar cedo, não tolero a cadeia alimentar!

Giulietta e a mariposa; a mariposa e Giulietta.

Impaciente, resolvo apartar a briga: salvar a mariposa e o que resta do meu sono. Abro todas as janelas, e na madrugada silenciosa o ringue continua. Provida de uma pasta na mão vou afastando o inseto, indicando o espaço de fora da casa.

Giulietta, com seu espírito de gata, entende que estou ao lado dela e que resolvi brincar também. A gata empolgada, dá pulos cada vez mais altos em direção a "nossa" presa.

Cansada e vencida, depois de um ataque da mariposa aos meu cabelos, me lembro que sou humana e resolvo dormir no outro quarto.

Longe de animais e insetos selvagens sonho com a selva. O que é rude me persegue.

domingo, agosto 23, 2009

azul

para Susana

Ela tem os olhos mais azuis e as pupilas mais pretas que eu já vi. Pupilas que mudam intensamente de tamanho a cada palavra dita.

É íntegra. Embora escorregue vez em quando no que não sabe ser seu querer. É humana.

Tão clara nos seus traços delicados.

Quase meu avesso, completa meu tom castanho.
Dá forma às minhas dúvidas quando fala das dela.

Sempre ao meu lado. Mesmo que ela caminhe ao sul e eu ao norte, em algum ponto da estrada nos encontramos sempre.

E na minha vida há um lugar reservado só pra ela.

quarta-feira, agosto 19, 2009

retroativo

Talvez você devesse saber do dia em que vi pela primeira vez todo aquele amarelo reunido; meu pai parou o carro pra realizar o que eu queria: correr no meio dos girassóis. As flores eram tão imensas que quase ultrapassavam a minha altura. E haviam abelhas ali. E a propriedade tinha um dono. E era eu, também, ali.

Naquela mesma viagem havia um anjo de pedra. Sei que os anjos não têm sexo, mas aquele era mulher. Fiz uma promessa à anja de pedra: voltaria um dia. E os mesmos olhos de pedra que me ecaravam, encarariam meu rosto alguns anos mais velha.

Muitos anos antes, eu olhei pro céu e pra terra e sem saber escrever ditei o que seria meu primeiro escrito. Eles acharam que eu tinha jeito pra coisa e me deram um caderno de poesia. Eu fingia que escrevia as letras que aquela altura desconhecia. Decorava a idéia do que "escrevia" e saia "lendo" pros outros que achavam "a menina uma graça!".

Alguns anos mais tarde encontrei um moço de olhos azuis em quem nunca encostei e muitos outros de olhos catanhos. Alguns consumados, muitos outros consumidos.

A partir daí o planeta Vênus retrocedeu e o caminho vermelho teve início.

Muito, muito mais tarde, macumbeira, escolhi uma calcinha vermelha porque sabia que veria por ali certo moço cruzando a esquina, bem perto de mim. E ali estava ele: não viu a calcinha vermelha, mas me viu.

Muitos anos antes, pulava da mesa da escola até o chão, de mãos dadas com os dois meninos: Gil e Gui.

E era você comigo no dia em que deixei pra trás meu guia. Amanheci sozinha pra caminhar antes do Sol nascer na terra do meu bisavô. Você me viu paralisada diante da água que brotava do meu rosto. Lambeu minha ferida e me deixou seguir.

E, naquele dia, eu passei a te seguir.

segunda-feira, agosto 17, 2009

parque

Quietinha e o prazer do silêncio. Em última instância, os outros são aventuras desejosas de se saber de si. Agradeço aos meus pares o prazer de brincar de mim e às muitas formas variadas que cada encontro me faz sentir.

quinta-feira, agosto 13, 2009

mr. joyce e a moça

Era uma vez uma moça que me dá preguiça. Mas devo falar dela pra que ela possa existir. Uma moça toda cor de rosa de renda. Quase sem corpo e sem chão. Ela não anda, flutua pelos cantos. Fixa seu olhar no nada e se ausenta. Não está aqui, está sempre além. Toda coração e exasperação. Lava o rosto se olhando ao espelho e diz pra si mesma: "acordei respirando você, Mr.Joyce".

quarta-feira, agosto 12, 2009

serendipità

"Serendipità, s.f. inv. scient., lo scoprire casualmente e in modo imprevisto un fenomeno di importanza fondamentale durante prove o esperimenti effettuati per tutt′altro scopo, o fondati su basi teoriche del tutto estranee alla scoperta. Per estensione: il trovare qualcosa mentre si sta cercando una cosa diversa."

il trovare qualcosa mentre si sta cercando una cosa diversa
il trovare qualcosa mentre si sta cercando una cosa diversa
il trovare qualcosa mentre si sta cercando una cosa diversa
il trovare qualcosa mentre si sta cercando una cosa diversa
il trovare qualcosa mentre si sta cercando una cosa diversa

Obrigada Rogério!

casa

Uma casa contruída da desconstrução. Quase nada ali foi escolhido. Foi-se herdando coisas e os detalhes apareceram.

corte

Foi preciso que me abrissem por dentro, arrancassem o que não servia mais para que eu entendesse o óbvio. A verdade ali, nítida, diante de mim: lembrei que andava e dançava, em volta e em cima do fogo, e corria enquando as outras mulheres davam passos curtos.
Eles ainda me deixaram uma cicatriz para que eu não me esqueça: tá gravado, virei um mapa das histórias que escolhi viver porque não quero mais apenas contá-las.

terça-feira, agosto 04, 2009

corpo

O corpo faz barulho por dentro. Grita pedindo que minha mente distraída o ouça. Pede coisas que ainda não sei, não descobri. Também é macio comigo, me ensina o improviso. As mãos na pele deslizam e o corpo abre-se inteiro.

segunda-feira, agosto 03, 2009

uma velha

Uma mulher sozinha, cheia de pequenas manchas nas mãos. Veias grossas e voz fina. Fala do tempo, do edredom que não seca, de sua coluna em forma de "S". Peço silêncio, ela se cala. Suas mãos estendidas sobre mim, ela me benze. Reparo as unhas sem esmaltes, mas cuidadosamente lixadas. Não consigo parar de olhar para aquela mulher que me benze, disfarço. Ela não está ali, benze todo dia e eu sou mais uma. Faz isso de graça; é só entrar que ela benze. Quer companhia. Faço minha parte: me benzendo, ela é importante. Pensamento atrás de pensamento, olho pra ela e ela... dormiu. Saio devagar pra não acordá-la do seu sonho de velhinha. Mais alguém entrará ali, muitos outros.

domingo, agosto 02, 2009

ser e ter

Frágil como tudo o que não depende exclusivamente da gente pra acontecer.
(Pode existir algo que dependa exclusivamente da gente pra acontecer?).
Frangalhinhos de respostas inseguras, pedaços de caminhos atenuados por um passo em demasia.
O passo que sobrou e te levou pra um além... além do destino de objetivo.
Num instante ri à toa, se eleva e voa; e num outro se insatisfaz com sua inabilidade em ser humana.
A raça humana inventou o amor? Os gatos te amam e gritam por ti. Mas você só é feliz se alguém te seguir com um balão vermelho em forma de coração.

quarta-feira, julho 29, 2009

sorver

Poesia é quando a vida lá fora congela um pouquinho e se lambe devagar pra que o sorvete não acabe logo?

E lambendo meticulosamente a fruta misturada ao leite, também congeladas, se percebe que alguns encontros têm mais sabor que outros.

E a vontade de encontrar o palito premiado pra poder repetir o doce, estender tempo e sabor.

O tempo é doce ao seu lado. E doce a gente quer mais.

lembranças reunidas

Guardei uma garrafa azul porque gosto de coisas de vidro. Ele, quando soube do meu gosto pelo objeto de vidro azul, olhou uma garrafa verde de azeite e se lembrou de mim; estava feito o presente. Ela, sabendo da união das duas garrafas, me deu hoje uma outra de vidro translúcido. Recuperei uma que já foi carregadinha de grapa italiana (minha primeira paixão). Juntei todas no móvel da copa.

E assim começam as coleções: quando se vê, já se coleciona algo.

sábado, julho 25, 2009

bruxaria

Era só dizer que a pessoa tinha sensibilidades extra sensoriais, que ela começava a imaginar as piores cenas já vistas. Com medo de que o sensitivo lesse seu pensamento, sacanagens bem boladas vinham à sua mente. E quanto mais buscava transformar o que pensva, maiores riquezas de detalhes eram acrescidas. Via o vidente nu, se imaginava beijando a boca dele, desconfiava do que ele dizia... Torcia os olhinhos, esfregava a testa um pouco suada para que as imagens mudassem de rumo e de nada adiantava. Era presunçosa demais e, no fundo sabia que também podia ler e ver o filme que se passava em cabeça alheia.

quarta-feira, julho 22, 2009

misto quente

Pode-se tudo nesta vida, eu sei. Posso tudo nessa vida, também sei. Sou atriz, conheço as mil faces do Dr. Lau. Também sei que se escolhe ser algo e que desde bebê quando o adulto olha pra gente com voz melosa e cara de babaca, já se está formatando algo. Acho que deveria me matricular no Kumon, desenvolver o outro lado do cérebro, decifarar frações dificílimas. Seria engraçado: eu e os mini-gênios-japinhas em disputa pra ver quem termina o exercício mais rápido. Agora o que quero mesmo é ser Ivete Sangalo e só viver alegria por escolha própria (nunca pensei que diria isso). Essa mulher não fica triste e tá sempre tirando o pé do chão.

quinta-feira, julho 16, 2009

niente senza gioia

Arturo é o menino mais lindo que eu já vi. Herdou o melhor e mais bonito de seu pai e de sua mãe e, também, das melhores experiências da vida. Arturo conversa e abraça as gatas da minha mãe (sua tia-avó); mas sabe que elas têm rabo e "Arturo não. Arturo tem bumbum". Arturo sabe o momento de chegar e o momento de ir embora. Sabe que, às vezes, só mãe resolve mesmo o estorvo que é viver. Arturo gosta de quiche de alho poró feita pela tia Lindi e de arroz branco com ovo mexido e rodelas de tomate pra improvisar comida fora de casa. Sabe que é especial e não poderia ser diferente com seu par de olhos azuizinhos. Sabe que é olhado e gosta disso. Vejam, anuncia: "Arturo caiu". Arturo levanta, sorri, pede o burro Bubu e a chupeta e resolve encerrar o dia.

quarta-feira, julho 15, 2009

genética

Sou mesmo uma moça de família e agradeço por todas as pessoas que existiram para que eu estivesse aqui.


Família me faz feliz.

segunda-feira, julho 06, 2009

colocar música na imagem 2

Essa virou até o toque do meu celular. E eu demoro pra atender pra ouvir um pouco mais...

colocar música na imagem 1

entre pulsos e cirurgias

Alguém que você não conhce muito chega num momento difícil e te faz mais simples.
Alguém um pouquinho mais velha.
Alguém que você olha e vê lá dentro.
Alguém que te oferece um café e te faz lembrar como é bom sair entre mulheres.
Você: interessante, irreverente e cara-de-pau.
Eu que tava triste.
De alguma forma quando te olho, me vejo refletida e sinto que vice-versa.
Voltei pra casa leve e feliz com vontade de amar o meu marido.

terça-feira, junho 30, 2009

pina

Agora sim, fica mesmo para a próxima encarnação.

Obrigada Pina, você me fez mais feliz.

Vi só 3 espetáculos ao vivo, mas recomendo tudo dela do jeito que for.

Quantas tardes no Instituto Goethe, era o único jeito de saber "O que fazem Pina Bausch e seus bailarinos em Wuppertal?".

Agora é só um clic... não deixe de dar, então.

A Pina é meu Michael Jackson, pegou muito mais fundo.





quinta-feira, junho 18, 2009

dente-de-leão

Aprendendo a ser suave com a vida.
Assoprar para desmanchar.

terça-feira, junho 16, 2009

mulherzinhas

Aurélia Camargo, ranheta que só ela, beija Fernando nas últimas frases do livro. O romance termina, aparecem três pontos assim: "***" (pelo menos na minha edição) e aí, ela resolve se entregar ao moço.

Gabriela Cordaro, que não costuma chorar em filmes, só se deu conta de suas lágrimas, um take antes dos créditos finais, apareceu assim: "à minha Beirute" e aí, ela resolveu se entregar as suas raízes árabes (anda pintando os olhos de forma, digamos, rebuscada).

com nostalgia

a viagem do cego

Estava triste. Descendo as escadas rolantes do metrô, na minha frente: um homem cego. Ele se desequilíbrou ao final dos degraus. Seguramos nele, ficou firme. Lembrei da oração de Santo Antônio que minha avó lera pra mim no dia 13 e cristãmente pensei, "estou triste, mas não sou cega".

Daí pensei em como seria triste viajar e não ver o novo. E "a viagem do cego" é feita do que? O cego precisa viajar pra ver o novo? Sem a facilidade de ver as coisas, imagino que tudo tem que ser continuamente recodificado. Será?

E Migulim?

“Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo...”.

Mas será que o cego gosta de viajar? Ou a cada momento descobre o mundo com "olhos" de viajante? Por cheiros, sons, tato e paladar?

"Sertão é dentro da gente."

E eu que não sou católica, mas tenho fé em Santo Antônio (e muita!), ainda assim continuei triste mesmo vendo as coisas do mundo.

enxaqueca

criar ou ficar na cama?

sábado, junho 06, 2009

respiro

Porque o filme revisto fica ainda mais bonito. Porque a Itália ainda tem seus encantos, apesar do tradicionalismo e retrocesso à italiana. Porque os dois meninos não eram atores e impressionam. Porque tem o Elio Germano, discretamente, mas tem.
Cenas do Backstage... imperdível pra quem, como eu, amou esse filme.

para o meu amor

Insieme significa junto em italiano.
In si e me.
In si.
si e me.
Estar junto é estar dentro de si e olhar para o que o outro tem dentro de si.
Rima pobre!
Esse post é só um registo de que hoje estou gostando de ter a casa toda pra mim, de desfrutar da minha companhia e saber que você tá tão in si e me... fazendo o que gosta e acredita aí no frio do Rio Grande do Sul.

terça-feira, maio 26, 2009

sexta-feira, abril 17, 2009

quanto tempo o tempo tem?

Tempo que se gasta para olhar para o lado. Tempo que se gasta para morrer de sede. Tempo que se gasta para deixar de ler mais uma página. Tempo que se gasta para inspirar. Tempo que se gasta para expirar. Quanto tempo durará tudo isso? Tempo que tenho de sobra para não fazer nada. Tempo que me faltava para fazer tudo. Tempo de dormir mais um pouco. Tempo de ler um livro por dia. Tempo de ver tv. Tempo de me irritar e querer dançar. Tanto tempo que não cabe no tempo. Tempo de digerir a comida. Tempo de nascer cabelos. Tempo de perceber as unhas compridas. Tempo de ficar recolhida. Tempo de escrever aqui.

quinta-feira, abril 02, 2009

eu e a espuma do mar

Achei uma foto que escondi quando tinha seis anos. Fiquei olhando a imagem que bem escondida ficou e só apareceu 24 anos depois guardadinha numa pasta verde, junto de embalagens de chicletes.

petit volcan

reproduzo aqui texto da Ju, minha irmã, artista desde que nasceu e neta da Julieta. Lindo!

JU (lieta)

Não há nada aqui.
Se você olhar bem, vai reparar que não há nada.
Tudo o que te encanta é vazio. Mas enche teus olhos quando enxerga, e vai longe olhando: olha, olha mais um pouco, indo longe, mais longe... Isso... Aperta a ponta dos dedos contra a palma deixando um buraquinho vazio entre eles e diz que vê melhor. Aperta os olhos, fecha o esquerdo e vê nitidamente o contorno das coisas, os muitos tons de verde, azul, vermelho... E diz que é lindo, nossa, como tudo é lindo!
(prefiro sentar-me contra as janelas porque a claridade enche os lugares de vultos.)
Deus que abençoe esse mundo todo, graças a deus estou aqui. Eu vi melhor o mundo hoje, não sei o que foi... Deve ter sido a viagem, ter saído da minha casa me fez bem, e há quanto eu estava querendo andar por aqui. Foi um milagre e eu vi melhor.
Com toda aquela vista, aquele sol enchendo de calor o meu corpo e aquele dia abençoado, eu olhei pra câmera e falei "salada": que é assim que se faz pra sair sorrindo na foto.

E então fiquei contente porque mesmo sabendo que não há nada aqui, eu te vi.

JULI (eta)

(Os dias passam calmamente. Não sei o que espero, mas espero, no fundo.)

Ela vai pra cama e as gatas se aproximam: querem aproveitar o calor que se fez do seu corpo no lençol de flanela. Tudo igual, não fosse as cicatrizes e o tubinho que vai drenando o sangue "ruim". As coisas do mesmo jeito, não fosse tanta gente querendo que "tudo" fique bem. E ela vai se preparando pra vida e para o que dela deriva, afinal, já viu tanta coisa e tanta gente, que sabe de cór o desfecho: se não for uma coisa, vai ser outra. Sabe mesmo e, por isso, vai levando, tranqüila.

T o d o s o s d i a s .

Ontem mesmo assistiu ao baile de debutantes da neta no vídeo cassete. Foi em 1991. E também o Natal de 1999, o aniversário de 1985 e tanta coisa, que já não sabe quando foi cada uma delas, porque chega uma hora que parece ser tudo igual.
E ela sabe que é.
Hoje o almoço foi na sala, a novela ofereceu aos seus telespectadores mais uma dose de anestesia com promessa de emoções para o próximo capítulo, a filha chegou cansada do trabalho, a sobrinha ligou dizendo que estava rezando por ela e ela também rezou muito para a nora que está aflita com o resultado de um exame.
Ela sabe que é assim mesmo e por isso não se importa com o imprevisto, já que, tirando algumas catástrofes naturais, o resto é humano e é fichinha. Quando se sofre uma, duas vezes; na próxima, o melhor a fazer é ficar calma e ajudar concreta e generosamente. A experiência conta muito para acalmar espíritos jovens e aflitos. Fora que o colo fica amaciado, o abraço mais anatômico a todos os tipos de corpos e o sorriso ofertado é sempre certeiro e terno.

E é assim todos os dias, até que chega um dia que não é mais. Mas aí não precisa falar porque não se está mais aqui para ver.

JULIETA

E, nesse acúmulo de dias, mais precisamente vinte e nove mil duzentos e sessenta e oito dias existindo, a beleza é sólida e indiscutível.

Texto de 2005 para a minha avó e que veio tão a calhar nesse momento.

quarta-feira, abril 01, 2009

destroços do dia

a história da história

Essa é a história da história que nunca foi contada. Ela nem sequer existiu. Ruiu a meia luz, num ruidoso relâmpago de idéia que vai embora. Desgostosa de si mesma, a idéia não tomou forma e a história nunca foi contada; ficou fechada no portãozinho de madeira puída e tinta desgastada. Não atravessou a rua, não pulou o meio-fio: ninguém ouviu! A história que nunca foi contada virou engasgo de gente torta,como aquela tia que morreu de soluço, mas aí é outra história. E essa já foi contada tantas vezes que virou lenda de família. Daquelas que assustam crianças quando elas soluçam, porque desde cedo aprende-se que nessa vida pode-se morrer de tudo.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

prévia


"eu tô tão feliz que existe mim!"

foto: renata velguim

sábado, fevereiro 07, 2009

hormonal

Procurando um livro pra me apaixonar.
Adiando a renovação da carta de motorista.
Sensível e irritada como nunca.
Leve sensação de adolescente, incompreendida e injustiçada. Risos. Minha tragédia é cômica.
Hoje, uma amiga me contou que aos 12 anos fazia terapia e quis conversar sobre sua dificuldade em acordar cedo. A terapeuta então respondeu: "isso você só vai mudar quando tiver filhos"!

Talvez esteja precisando ter filhos.

fellini, o gato, pulou no teclado para escrever:

km,

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

a(h!)não

il sogno di francesca

Francesca sou eu. Francesca é quem percorre todas as direções contrárias às minhas. Francesca faz tudo o que eu não fiz. Francesca aparece quando uma palavra escutada vira fantasia. Francesca não tem limites, devora o que vê à sua frente, chuta e abandona os fracos pelo caminho. Francesca tem o poder do teletransporte: muda de geografia que é uma maravilha! Francesca diz não e é egoísta. Eu sou perfeita e boazinha.