Sexta-feira, Novembro 20, 2009

"tema para um pequeno conto"

"um homem chegou por acaso, viu uma gaivota e, por pura falta do que fazer, matou a gaivota..."

usufruto - tema para um pequeno conto

olho pra trás e a cabeça insiste em transformar minhas últimas escolhas em pesadelo.

de olhos abertos vejo os detalhes que ignoro quando visto minhas asas brancas.

a sereia se mostra inteira e mata o homem por puro tédio, por pura falta do que fazer.

por desejar tão grande e vermelho; ignoro mentiras, ausências e pequenos desprazeres.

quero ficar com o sabor genuíno do que um dia projetei em ti. sei que não é verdade, sei que o encanto é meu. vem de mim e não de ti.

como "vera gata", brinco de usufruir você e jamais usar-te.

inventando uma realidade, distorço o que é terra dentro de mim.

acabo em ansiedade por saber que meus pés, assim, se distanciam muito do chão.

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

netuno

No meio dos outros, no meio do que é dos outros encontro pistas do que deixei inscrito em cavernas antigas.

Não é meu, nem nunca foi.

Com tinta ocre gravo a história que invento pra mim.

É dos outros. É dela, não é meu. É dele, não é meu.

Insisto em pegar um pedaço que me é oferecido e esqueço da parte que realmente me cabe.

Fico tonta com o que não me pertence.

Em meio a tanta alteridade, percebo que sou dona de tudo!

E que essa história escolhi pra mim desde os tempos em que se pintava em cavernas e o bicho morria mais fácil pra gente comer.

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

bobos de amor

Jamais poderia ter um cão. Sou boba de amor e cachorros também são. Nos encantaríamos um pelo o outro, amaríamos o nosso amor e nossa capacidade de amar. Devotados a nós mesmos, não mais sairíamos de casa. Lamberíamos um ao outro e seríamos felizes com modestas quantidades de ração porque, apaixonados, comeríamos pouco e largaríamos o osso.

a gata que ri

Giulietta se funde às minhas pernas, me diz boa noite e sorri seu sorriso de gata.

Quarta-feira, Outubro 14, 2009

lacuna

Na verdade já sabia o final da história desde que resolveu colocar os pés naquelas águas. Os enredos repetiam-se, mas os pés teimavam em continuar ali. A água quente seduzia-lhe. "Depois não diga que não te avisei", dizia pra si mesma. Mas às vezes a vida não é tão exata e a água não é tão límpida. Às vezes se gosta do azedo. E o escuro parece a melhor saída. Mas se eu tivesse uma filha com os pés molhados por essas águas, diria:



(Eu não tenho filhos e a lacuna se faz).

Quarta-feira, Outubro 07, 2009

casamentos

Era um casamento na praia. Chegamos cedo. "Vamos andar pela praia?". Pés paulistanos sedentos de areia e sal do mar. Fomos. Noiva se arrumando. Noivo arrumando a festa. Comemos queijo coalho no palito. Silêncio. Casamento dos outros. De repente começou a chover. Chovia. Chuva grossa e gelada. Eu e você embaixo de um guarda sol. Completamente ilhados. Impossível atravessar a tempestade. Parados no que restava de areia fofa vendo a chuva endurecer os outros grãos. Silêncio. Nos casamos de novo. Mas agora sem a ilusão que uma cerimônia de casamento cria.

Segunda-feira, Setembro 21, 2009

eu era ar e tempo

Hoje a fala-poema de Stela do Patrocínio fala mais e melhor por mim:

Eu era ar e tempo
Eu era ar e tempo, espaço vazio, tempo
Eu era ar e tempo, espaço vazio

Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo
E gases puro, assim
Eu era ar e tempo

Eu não tinha formação
Não tinha formatura
Não tinha onde fazer cabeça
Fazer braço, fazer corpo
Fazer orelha, fazer nariz
Céu da boca, falatório
Fazer músculo, fazer dente

Eu não tinha onde fazer nada dessas coisas
Pensar em alguma coisa
Ser útil, inteligente, ser raciocínio, fazer cabeça
Não tinha onde tirar
Eu era espaço vazio

Eu não sei como é que pode formar uma cabeça
Um olho enxergando, nariz respirando
Boca com dentes
Orelhas ouvindo vozes
Pele, carne, ossos
Altura, largura, força
Pra ter força
O que é preciso fazer

Tomar vitamina
É preciso vitamina.

Domingo, Setembro 20, 2009

minha resposta sobre o que é paixão

Era possível estender cada micro esfera de segundo prestando atenção nos rastros de sua presa. Passarinho dentro da boca. Tentativa desesperada de bater asas dentro do pescoço do predador, coração em disritmia.