quarta-feira, dezembro 03, 2008

o disfarce do ovo





menina

Assim tão dentro de si percebeu: ação e meditação. O tempo era seu para usá-lo como queria. Podia passar tardes a saborear o que não era seu, como quem lê revista de celebridade, ou podia arriscar o que conhecia. Porque o medo, aos poucos descobria. Vais e vens longíquos, gritos adormecidos. Mas ela conhecia bem o sangue da linhagem a qual pertencia e, por isso, tinha que dar o salto, não negando a si mesma e nem ao mundo os talentos que possuía. Arrumou sua trouxa, enrolou-a em pano de algodão, pendurou-a num bastão e saiu pelas ruas. Foi deixando cair tudo o que não servia mais. Pés cansados, cabeça vazia. Só não fez passos de dança porque nunca soube dançar o que não era seu. Quando pequena, sua mãe matriculou-a num curso de ballet: enquanto a turma em uníssono ía pra direita, ela sozinha bailava para esquerda. E nas danças de casal nunca soube se deixar conduzir. Dançava bem a dança de seu próprio corpo. Uma dança um pouco machucada, mau das pernas; mas bonita. Sim, podia-se dizer que era uma mulher que dançava. Trouxa mais leve, peito carregado. Ela sabia que se não fosse o que prometera para si, jamais se perdoaria. Tinha que respeitar os desejos da menina que um dia foi expulsa da aula de ballet por dançar o contrário.

quarta-feira, novembro 05, 2008

o homem das cores concretas

Em busca da fantasia que faz meu mover em corrente sanguínea; ligo o rádio, vou à Itália e deixo minha alma sem morada. Longe, longe. Fora, fora. Depressão pós cor-de-rosa! Meu vermelho intenso me cobra, pede para ser olhado e explorado.

quinta-feira, outubro 16, 2008

Deus

Deus, permita ao meu homem chorar, assim como ele sorri.

sábado, agosto 23, 2008

da exposição e outros demônios

Os olhos fecham e deliciam-se com o detalhismo do que existe aqui dentro: riqueza de cores, pontilhismo interessante. Devagar, sem que ninguém note, beijo meu braço direito. Minha pele é quente, viva. Sigo em frente, apaixonada. Comigo em mais alta conta. Difícil é dividir esse valor com o mundo. A exposição é o capeta! Minha timidez detém passo firme.

domingo, agosto 10, 2008

assim me salvo


foto: Renata Velguim

salvação

Escrever para tentar margear o rio. Direcionar seu curso. A ausência de palavras nesse espaço acontece porque o teatro tem margeado minha vida. E como a nascesnte é selvagem, ainda não sei fazer uso das duas linguagens ao mesmo tempo. Mas é tudo matéria de salvação, vêm e saem do mesmo saco!

ofensiva

Sem nenhum ritual, como faço todos os dias, abro a porta do armário para sem muito escolher me vestir para o dia. Meu rosto me surpreende refletido no espelho: não sou quem há muito pensava. Meu rosto me desmente, me desautoriza. Assim, face neutra, cara-a-cara comigo, sou minha inimiga. O sorriso habitual destempera a face escondida. Sou séria, olhos grandes. Minha boca é ofensiva, meu olhar é ofensivo. Os anos passando revelam uma mulher há muito escondida. Sou surpreendida com a agressividade tão distante da minha famosa suavidade. Sou mulher de choro alto com olhos que rasgam minha pele para ver o mundo e, às vezes, o ofendo com a composição irregular que sou.

quarta-feira, junho 25, 2008

para bia

Ela disse que seria assim, uma vida por olhos de jabuticaba.
O que esses olhos viam eram apenas contornos. O que esses grandes olhos sentiam era inexpremível a olho nu. Era uma segunda natureza, um olhar de raio x que atravessa o que é visto. Ela era dessas pessoas que estão junto de ti e no segundo seguinte já foram, não estão mais. Havia nela um vazio que nem ela alcançava. Quem quisesse mergulhar nos seus olhos de jabuticaba, teria de se esquecer de si. Eram olhos tristes. Olhos enevoados, formados por minúsculas partículas de água. Olhos em suspensão, prontos para o sumiço repentino. Porque em silêncio, a qualquer momento, a dona desses olhos olhava para dentro e desaparecia. Tinha um pé de jabuticaba dentro de si. E pra lá ia, dentro dela mesma em usufruto próprio a chupar jabuticabas. Suas frutas em botão.

quarta-feira, abril 30, 2008

roma

Tinha uma imagem de si de terceira pessoa. Ela era ela, mas também não era. Sabia que em algum lugar de sua personalidade mais profunda, havia um ser que tudo sabia e nada escondia.
Gostava de imaginar o que aquele super-ser faria quando a dúvida aparecia.
Às vezes, agia como quem esconde de si sua parte mais concisa e competente. Para aquela parte dela que em nada excedia, o mundo estava extremamente justo e de acordo. O desafio estava em se deixar guiar, cada vez mais, por essa inteireza. Abrir mão do que, um dia, disseram ser ela.
Fácil era abrir mão das fantasias alheias sobre o que ela seria. Difícil era destruir forma e conteúdo do que ela própria construiu para si; e se contentar em ser a grande ruína dela mesma. E seria tão bela, como belas são as ruínas de outras civilizações. Talvez mais belas e mais genuínas do que foram em atividade, mas agora com a austeridade própria das coisas que permanecem.

os outros

Tentava uma palavra e não acontecia. Concatenava uma palavra com outra e a frase não nascia. Depois de dedilhar inutilmente os dedos pelo teclado do computador, concluiu: existem os momentos de leitura e existem os momentos de escrever. Agora só podia ler porque a mágica da união das palavras não se fazia. E ler uma obra inteira de determinado autor dava uma certa confusão de linguagem. Um mal estar de se sentir um outro.

sexta-feira, abril 25, 2008

maneirismo

Acho bonito: seu sorriso, sua fala, seu jeito de andar, seu jeito de atender ao telefone, o modo como abre a porta do carro, a maneira como dorme, os trajes esfarrapados com que dorme, a maneira como prepara a comida, a voz suave que faz para falar com os bichinhos, suas unhas nunca feitas, seu mau humor matinal, sua timidez travestida de antipatia, a insegurança que vez por outra assola sua vida, as personagens que vive e inventa pra si mesma, sua transparência que não a ajuda a disfarçar seus desencantos e bravezas, seu lado fanático, sua porção descrente, o modo como muda de opinião facilmente quando admira o dono do novo argumento, sua preguiça em ler jornais, seu encanto por cinema, a maneira desregrada com que lê mil livros ao mesmo tempo, seu pavor em atender telefonemas, seu medo de fracassar, seu interesse por adivinhar a próxima música que vai tocar na rádio, sua fixação por certas pessoas, seu amor dedicado e interessado, o modo como escreve o nome de toda a família ao falar ao telefone, sua desproteção, sua suavidade, sua agressividade (que assusta pessoas desavisadas e crentes na sua habitual suavidade), seu medo de ladrão, sua coragem para matar baratas, seu destempero com certos tipos de mulheres, seus talentos, seu despreparo, sua mágoa, sua mágica de adolescente, sua crença em precisar do outro, sua força em dizer não.

criação

Nada a fazer, a não ser viver essa maré de água funda. Já me disseram que isso é excesso de energia criativa. E que, quem não faz obra de arte acaba fazendo filhos. O que não deixa de ser uma expressão de genuína criatividade.

terça-feira, abril 01, 2008

profissão de fé

O menino me disse que, quando crescesse, seria lixeiro ou caixa de supermercados. Achei bonito. Escolha de coração; pelo simples prazer e fruir da atividade. Pelo gozo da brincadeira. Lembrei de um tempo em que meu deleite era observar vendedores a fazer pacotes de presentes. Em casa, embrulhava todos os mimos que apareciam. Meu sonho era ter um porta durex profissional, como os que via nas lojas. E naquele tempo seria feliz em dedicar minha vida a papéis, durex, laços e posterior alegria do presenteado.

quinta-feira, março 27, 2008

troca de pele

Então trocaremos de identidade. Você me dita palavra e eu te ensino a namorar. Empresto meu corpo jovem, em bom estado e com pouco uso, para seres de novo por esses tempos de tecnologia e poesia concreta. Você me deixa passear pela orla e me atrever a viver paixão e fogo. Assim, respondo a pergunta "como é que ela sabe de tudo?". E se um encontro for pouco, te digo.
Agora sinto você perto de mim e me dá medo. Sei que aceitou a proposta e que chegará no próximo táxi amarelo. Também sei que não se vive uma vida assim impunemente: a comer bananas adocicadas com canela em plena segunda-feira à tarde. Bananas têm mistérios das savanas. E tardes... bem, as tardes são nossos horários prediletos, não é minha dileta amiga?

anonimato

Um desconhecido, me olhando na rua, fez com que eu me sentisse completamente anônima. Ele me olhou de modo tão forte e atento, que me senti muito estranha a mim mesma. Tentei inutilmente visualizar o que seria e expressaria meu rosto. Senti no olhar apurado do homem, retrato fiel do que sou eu. E sendo mais alheia a mim do que a ele, atravessei a rua de cabeça baixa com imenso respeito a meu ilustre desconhecido.

domingo, março 16, 2008

auto ajuda

Aquele que sofre de elevada vida interna não deve deitar-se a cama em manhãs, tardes ou noites vazias. O pensamento vai, voa a lugares esquivos e faz troça do dia-a-dia. Nesses momentos, lavar a roupa auxilia muito. Varrer a casa, melhor ainda. Tudo o que te mostre o duro peso do trabalho braçal ajuda. E traz um leve e trivial prazer de tarefa cumprida. É tiro e queda.

me, mi, comigo

Hoje revelei um segredo que escondia de mim mesma. Resolvi me contar e compartilhar comigo surpresa e susto.

quinta-feira, março 13, 2008

mal-do-século

Quando uma frase não se faz é melhor abrir caminho. Quero falar de algo íntimo e secreto, mas não quero que me notem. Então, só digo que amo e do amor me faço toda. Exasperação e calmaria.

sinestesia

Bonjour. Te acordo com o gosto de ontem.

a minha voz

Um canto bem apertadinho. Voz aguda saindo de mansinho, arranhando e apertando minha garganta. Sentindo falta de ar, vou completando a inviável canção que meu peito pedir pra eu cantar. Não são fagulhas, nem choques de cores e notas. É uma voz preto e branca mesmo. Inconsistente e tímida. Que na sua grandeza, disfarça: faz denguinho e dissimula frágil presença. Um dia chego lá, no lugar que realmente se esconde minha voz, e só vou querer saber de cantar samba canção!

segunda-feira, março 03, 2008

estória de princesa para crianças-meninas (meninos também podem ler e não tenham pudor em gostar)

Porque era filha do Sol e da Lua não podia andar pelo mundo sozinha. Andava em carruagens de mãos apertadas e dedos entrelaçados com os do Sol e os da Lua. Sempre no banco de trás.
Nunca respondia por si. Quando achava que dizia algo próprio, tinha por de trás os raios do Sol e a luz da Lua a lhe imprimir ritmo e magia.
Se tinha pesadelo, o Sol ou a Lua vinham lhe acalentar.
Uma vez, deu de andar na rua. Voltando pra casa, na ausência do Sol e da Lua, sua pele toda empipocada pedia algodão com água fresca. Tinha alergia de andar sozinha.
Sendo filha do Sol e da Lua, tinha encantos e anéis de saturno.
O tempo passou para a filha do Sol e da Lua. Passou. Passou. E, sem saber que o amanhecer chegaria naquele dia, ela abriu todas as janelas. Sendo filha do Sol e da Lua, tinha poderes e aleluias. Só não sabia. Determinou que não teria alergia, saiu só e maravilhas: mais fortes eram os dons da filha do Sol com a Lua. Só que ela não podia imaginar no meio da escuridão e confusão que eram razão do encontro do Sol com a Lua. Era esplendoroso estar sozinha, escolher se para a direita ou para a esquerda. Desprotegidamente protegida por ela mesma. Sendo ela inteira, era cada vez mais parte do Sol e da Lua, mas se bastava sozinha.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

a festa do jardim

A próxima festa que der em casa pedirá outra colaboração ao invés das já tradicionais bebidinhas. Pedirei aos amigos plantas para o jardim. Com vaso, terra e semente. Cada planta poderá ser batizada pelo gentil padrinho. E assim se fará o jardim.

o caderno dos sonhos

Meu filho terá desde pequeno um caderno dos sonhos. Assim que ele tiver idade suficiente para entender que sonha (se é que em algum momento a gente precise entender isso), o caderno terá início. Todos os dias perguntarei pelo sonho. Enquanto meu filho não souber escrever, escrevo eu mesma e a ele cabe o desenho do sonho. Quando o pequeno já souber escrever, será dele a tarefa. Como mãe que cobra diariamente lição de casa, eu cobrarei sonhos.

domingo, fevereiro 03, 2008

do viver para morrer e vice-versa e versa-vice

No dia em que me encontrei com Buda, ele me disse: use sua vida para se preparar pra morrer.
Eu instantaneamente, como faço a 29 anos ao ouvir a palavra morte, bati 3 vezes na madeira. Buda, gordo como um rei momo, sorriu e me disse: A morte é um espelho que reflete vida. Eu, então, pensei: pobre de mim, brasileira de mão cheia, tão distanciada de mim mesma.
Sentei, então, uma tarde e uma noite em "Yoga mudra", a postura em que Buda atingiu a iluminação. E meditei... Meditei, meditei, meditei, me editei. Vi contas a pagar, louça pra lavar, a borracha do para brisas que tá na hora de trocar, luzes, ondulações, vontade de fazer xixi, perna dormindo, bebê sendo parido, meu pedaço de madeira para isolar as besteiras, arroz com feijão, espaço vazio, dor, prazer, tesãozinho, Caetano Veloso cantando "Leãozinho", beijei todos os seres, espaço vazio, branco, branco, branco, branco e o Buda-momo sorriu.
Saindo da estante da minha avó, lá escondidinho entre santos e orações, o Buda-momo dourado, sentado em notas de dinheiro (para que nunca faltasse, dizia minha avó) foi crescendo, virou luz e deitou no meu colo. Ninei o Buda por uma manhã, duas tardes e uma noite. Questionava o coitado: sou filha de comunista, minha avó é benzedeira, minha mãe sabe de tudo do que está oculto e morre de medo. Se só a prática espiritual ajuda a compreender e encarar a morte, dando um significado real para a vida, e para a própria morte, como posso agir? Viro monja no Tibete ou sento praça em Taubaté? As duas coisas? Ou não? Se é que você me entende parceiro...
Buda dessa vez não sorriu e eu fiquei insegura. Não agradei. Ele, então, se desmaterializou. Virou um peixe e me ensinou o Yoga (foi generoso e me mostrou o Hatha e o Ashtanga Yoga). Depois que estava cansda e suada, voltou em forma de rã e me apresentou Pedro San, o massagista. Mais tarde, quando já tinha meus ossos vivificados pelo amor do massagista; Buda me apontou uma estrada que levava a Miguel Pereira. Lá pude ver as coisas como elas realmente são, em silêncio profundo e harmonia com os insetos. Buda se transmutou novamente e virou uma colher de pau e como misturava os alimentos!
Foi me instruindo por dias a fio e eu entendi: o hábito faz o monge, como já dizia outro iluminado, Mr. William Shakespeare.

Evoé, grande Buda! Namastê, sir William.

sábado, fevereiro 02, 2008

jael

sábado, janeiro 26, 2008

kindergarten

Ela não falava minha língua. E nem eu a dela. Durante os sete dias em que passei na Áustria, numa cidadezinha de nome impronunciável, uma criança de dois anos foi meu modo de sentir e olhar para o mundo.

Seu nome era Jael, tinha finos cabelos loiros e olhos de um azul brilhante, como não poderia deixar de ser.

Ela estava no kindergarten na manhã em que eu cheguei a sua casa para permanecer ali por mais sete dias. No começo me estranhou. Acusava-me de ler os livros da mãe dela, de sentar e dormir na casa dela. Eu tentava me comunicar. Sua língua era um alemão dadaísta que eu tampouco compreendia. Tentava um sorriso e nada, seu olhar de acusação permanecia.

Na noite do primeiro dia, enquanto jantávamos, resolvi pegar na sua mão. Ela aceitou e de mãos dadas percorremos toda extensão da pequena casa em que estávamos até chegarmos à caixa de lápis de cor. Ela, então, me deu papel para que nos duas desenhássemos. E assim fizemos até o momento em que ela foi dormir. Naquele ponto ela já tinha entendido que eu era uma amiga diferente, literalmente de outro país.

Desenharmos juntas nos fez companheiras. Então Jael, me levava para onde ela ia. Trazia livros de histórias para que eu contasse. Eu as contava em português e ela ouvia atenciosamente. Um dia como que por milagre perguntei: "cadê o gato?". Inesperadamente, ela apontou para o lugar exato do livro onde o gato se encontrava e me fez compreender que entre nós havia outra língua sendo dita e sentida.

Todas as manhã, ela me acordava com um longo abraço. Mexia na minha corrente cheia de amuletos e me pedia coisas, em alemão. Eu realizava o que intuía e assim fomos nos dando muito bem.

Um dia ela me pediu algo que não compreendi. Ela, então, pediu à sua mãe; queria que eu a levasse ao kindergarten. Lá fui eu. Jael entrou muito excitada na sala de aula, começou a chamar todos os colegas e lá me apresentou para todos. Eu era o brinquedo que ela acabara de ganhar, um brinquedo muito diferente. Tive de ir, ela ficou frustrada. Mesmo assim me deu um beijo de despedida.

Voltar da escola significava, para ela, voltar pra mim. E eu confesso que ansiava também por sua volta. De tanto chamá-la de "coisa linda", no aeroporto, quando partia, foi assim que ela me disse adeus, coisa linda! E então, no sétimo dia, Deus inventou a linguagem do coração.
E eu chorei e sorri.