sábado, janeiro 26, 2008

kindergarten

Ela não falava minha língua. E nem eu a dela. Durante os sete dias em que passei na Áustria, numa cidadezinha de nome impronunciável, uma criança de dois anos foi meu modo de sentir e olhar para o mundo.

Seu nome era Jael, tinha finos cabelos loiros e olhos de um azul brilhante, como não poderia deixar de ser.

Ela estava no kindergarten na manhã em que eu cheguei a sua casa para permanecer ali por mais sete dias. No começo me estranhou. Acusava-me de ler os livros da mãe dela, de sentar e dormir na casa dela. Eu tentava me comunicar. Sua língua era um alemão dadaísta que eu tampouco compreendia. Tentava um sorriso e nada, seu olhar de acusação permanecia.

Na noite do primeiro dia, enquanto jantávamos, resolvi pegar na sua mão. Ela aceitou e de mãos dadas percorremos toda extensão da pequena casa em que estávamos até chegarmos à caixa de lápis de cor. Ela, então, me deu papel para que nos duas desenhássemos. E assim fizemos até o momento em que ela foi dormir. Naquele ponto ela já tinha entendido que eu era uma amiga diferente, literalmente de outro país.

Desenharmos juntas nos fez companheiras. Então Jael, me levava para onde ela ia. Trazia livros de histórias para que eu contasse. Eu as contava em português e ela ouvia atenciosamente. Um dia como que por milagre perguntei: "cadê o gato?". Inesperadamente, ela apontou para o lugar exato do livro onde o gato se encontrava e me fez compreender que entre nós havia outra língua sendo dita e sentida.

Todas as manhã, ela me acordava com um longo abraço. Mexia na minha corrente cheia de amuletos e me pedia coisas, em alemão. Eu realizava o que intuía e assim fomos nos dando muito bem.

Um dia ela me pediu algo que não compreendi. Ela, então, pediu à sua mãe; queria que eu a levasse ao kindergarten. Lá fui eu. Jael entrou muito excitada na sala de aula, começou a chamar todos os colegas e lá me apresentou para todos. Eu era o brinquedo que ela acabara de ganhar, um brinquedo muito diferente. Tive de ir, ela ficou frustrada. Mesmo assim me deu um beijo de despedida.

Voltar da escola significava, para ela, voltar pra mim. E eu confesso que ansiava também por sua volta. De tanto chamá-la de "coisa linda", no aeroporto, quando partia, foi assim que ela me disse adeus, coisa linda! E então, no sétimo dia, Deus inventou a linguagem do coração.
E eu chorei e sorri.