quarta-feira, março 21, 2007

manoel de barros

"Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução".

cuspirei sangue

Vou roubar um acontecimento. Furtarei um fato da vida de outra pessoa: vou pegar, morder, moer e jogar o resto fora. Vou pisar, chutar e cuspir no que não me servir. Não me engasgarei mais, cuspirei sangue. Sem piedade ou autocomiseração. Vou furtar gestos, palavras, fotos e lembraças. Vou amar o marido das outras. Pisarei em todas as amantes. Sacrificarei meu semelhante por um anel de ouro ou diamantes. Passarei nota falsa. Venderei gato por lebre. Serei a rainha dos inescrupulosos. Passarei a perna em todos os meus. Distribuirei rasteiras. Atropelarei velhinhos. E finalmente, ficarei devendo na venda.

agridoce

No rosto uma enorme cicatriz. No peito a bandeira do Brasil. Usa uma capa dessas de farmacologista, nela está escrita uma frase de parachoque de caminhão; algo como, "miséria boa é miséria de pobre". Nada de "eu amo minha mulher", o tom é outro. Nas mãos uma serra elétrica. O avental está sujo de sangue. Há suor em seu rosto. Seu cheiro é ruim. É sujo. É feio.

Já foi, e ainda é, em parte, bailarina de bolo de aniversário. Mas a bailarina segura, lá no fundo, uma serra elétrica que tira sangue de quem passar pelo seu caminho.

quinta-feira, março 15, 2007

sábado, março 10, 2007

aurélio

Obrigada Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, por dar signo à minha vida!
Tantos significados bonitos! Torpor, por exemplo, pode significar "indiferença ou inércia moral" e ainda "ausência de resposta a estínulos comuns".

Aurélio, i love you!

Acordava angustiada. Sofria de nó na garganta pela manhã. O mundo era muito coberto para uma pessoa como ela. Vivia a crueza dos virados do avesso. Um gesto, um passo, tudo tinha que ser muito bem pensado. A vida para ela era fatal. Escolher não era um ato aleatório. Um passo em falso e o nó aumentava. Lavar a louça ou sair pela rua? Não vivia impunemente, seus atos eram experiências. Tinha de negociar com Deus, pedia para viver à prestação.

quarta-feira, março 07, 2007

não sei

Será que algum dia saberei dizer "não sei" como ela dizia?
Um "não sei" sem olhar para trás e sem medo do que um "não sei" possa causar.

terça-feira, março 06, 2007

segunda-feira, março 05, 2007

giuseppe

Ele que nasceu na cidade de Borgia e veio parar no interior de São Paulo. Ele que não conseguia falar português e por isso ficava quieto. Ele que nasceu no mesmo dia que eu. Ele que é meu bisavô. Dele é tudo que sei.

cabeça feita

Saimos na rua e compramos chapéus. Eu, um vermelho escarlate para andar distraída; ele, comprou dois, um para sair por aí e outro para abraçar o mundo.

o homem mais misterioso do mundo

Meu avô falava pouco. Minha maior recordação dele é que tudo e todos paravam para que ele assistisse Charlie Chaplin na televisão.
Logo descobri que gostar de Chaplin era uma maneira de me aproximar dele, então ria alto com as trapalhadas de Carlitos para que todos, e principalmente ele, soubessem que o programa também me agradava.
Lembro que no último Natal que passamos juntos, ele rompeu a barreira de seu solene silêncio, e dançou break por horas a fio.

Detalhes que contam quem era meu avô: ele tinha um despertador vermelho e uma estátua de um menino jornaleiro, não tirava seu roupão azul-marinho, torcia para o Palmeiras e desenhava muito bem.

Minha avó fazia deliciosas comidas para festejar meu avô. Íamos sempre almoçar na casa deles e para beber tinha sempre água tônica, que eu detestava e achava uma bebida fracassada. Meu pensamento de criança não concebia que um quase-refrigerante-de-adulto fosse tão sem graça e sem gosto!
Um dia, numa manhã de final de semana, meu pai chegou abatido e disse que o "vovô Tó" tinha morrido. Ouvi a informação sem muito entender e voltei a brincar. Só que a partir daquele dia, a brincadeira mudou, brincava de procurar meu avô pelas ruas por onde passava. Nisso não havia morbidez, era um pensamento simples e objetivo: precisava encontrar meu avô que tinha desaparecido. E nessa procura havia o pragmatismo de uma criança com um forte objetivo.
Só o encontrei anos mais tarde reassistindo aos filmes de Chaplin. Aliás, tenho até hoje a sensação infantil de que meu avô é o próprio Charlie Chaplin.

domingo, março 04, 2007

anunciação

Acontecia toda vez, um quase acidente sublinhava detalhes de sua vida que anunciavam coisas futuras. No momento em que os vivia nunca os percebia, mas anos ou meses depois o rastro era revelado.
A rua de sua nova casa era casualmente a mesma em que, sete anos antes, quase fora atropelada.
Outra vez ficara presa num elevador por mais de duas horas. Um ano depois aquele mesmo elevador tornou-se trivial, o meio de chegar ao apartamento 51, onde morava M. P.
Um dia teve uma vontade repentina de comprar um cacho de bananas na Rua do Ouvidor. Essa vontade soou-lhe estranha, morava sozinha e jamais conseguiria comer tudo aquilo. Com a carteira na mão, prestes a pagar pelo cacho, foi roubada. Teve medo; percebeu o que ocorria.
A partir daquele dia, toda vez que passava pela Rua do Ouvidor, observava cuidadosamente o chão por onde seguia e desviava com destreza de cascas de banana.