sexta-feira, abril 26, 2013
polaco
O mendigo parecia um polonês. Sentado no banco redondo de pedra, no meio da praça, meditava dentro de si. Estava calor, mas o mendigo polaco permanecia encapotado num pesado sobretudo preto. De barbas brancas e cabelo loiro acinzentado perdia-se no vazio. Outros mendigos moravam na praça; negros, brancos e conversavam entre si. O mendigo eslavo não falava e nem olhava para ninguém. Perdido dentro dele mesmo, era como se estivesse numa outra praça, num outro tempo, bem distante dali. Meus olhos não queriam deixar de vê-lo. Minha tristeza também estava ali na beleza daquele mendigo inadequado no meio da confusão. Passando sozinha pela praça, minha alma fisgou a do mendigo. Quis sê-lo. Voyeur daquele outro. Então, o mendigo olhou para mim. Envergonhada, desviei o olhar ao saber que minha observação preenchera aquele vazio.
quarta-feira, março 14, 2012
casa vazia
É profundo dentro de mim e me acompanha sem que eu tenha escolhido. Ecoa de medos que nunca foram meus. Algo que foi experiência de uma outra mulher, em outra época, outra geografia. Como aquele gesto de família que se reconhece em si mesmo quando em silêncio compartilhado, quando não se preocupa com a expressão que nos cabe. Esse medo de perder o controle do que se acredita ter; esse medo da desconstrução, me pertence, mas não é exclusividade minha. (Talvez ainda seja preciso que eu passe por isso para que em 2.117 uma moça se sinta livre).
Mas quando volto para minha casa vazia sei que nada me detém.
Mas quando volto para minha casa vazia sei que nada me detém.
sábado, dezembro 24, 2011
pajaritos
Lembrei que num dia de Natal, que há muito tempo aconteceu, eu era uma menina de camiseta roxa com um periquito verde estampado bem no centro.
E não por mero acaso, mas por invencionice do viver, essa menina que preferia o Natal ao seu aniversário - à época a segunda data mais empolgante do ano - veste hoje uma saia de pássaros e já não vê tanta graça em datas comemorativas.
(Mas ainda gosta muito de comemorar aniversários)
E não por mero acaso, mas por invencionice do viver, essa menina que preferia o Natal ao seu aniversário - à época a segunda data mais empolgante do ano - veste hoje uma saia de pássaros e já não vê tanta graça em datas comemorativas.
(Mas ainda gosta muito de comemorar aniversários)
segunda-feira, outubro 17, 2011
o que Mineko Iwasaki contou pra mim
para o rapaz
A menina olhou para o moço, morreu de amor e virou uma gueixa. Tudo o que ela queria era amar, cozinhar, se pintar e entregar-se à tradicional e milenar arte da sedução. Seduzir todos os dias um único rapaz. Amá-lo dos dedos dos pés ao último fio de cabelo. Sabia-se flor, "bela em seu próprio estilo". Sabia-se salgueiro "graciosa, flexível, e forte". E amava. Sabia-se feliz.
A menina olhou para o moço, morreu de amor e virou uma gueixa. Tudo o que ela queria era amar, cozinhar, se pintar e entregar-se à tradicional e milenar arte da sedução. Seduzir todos os dias um único rapaz. Amá-lo dos dedos dos pés ao último fio de cabelo. Sabia-se flor, "bela em seu próprio estilo". Sabia-se salgueiro "graciosa, flexível, e forte". E amava. Sabia-se feliz.
quinta-feira, agosto 11, 2011
verbo to be
E por falar em fraqueza, escancaro em mim o que é frágil. Minha força vem da certeza de não me querer (mostrar) forte, mulher maravilha, hypada em sorrisos de festa esfumaçada com gente bem vestida. Erro muito quando quero ser o que não sou. Como aquele tipo de gente que ri alto pra mostrar que é leve e feliz. Tenho preguiça de gente assim (e mais preguiça ainda quando me pego assim). Quando me esqueço que ser é estar.
sábado, junho 18, 2011
mães
Uma moça com uma boneca de plástico em seus braços. Uma moça inebriada com a boneca como se realmente tivesse tido um bebê. A boneca era tão real. Ela até conseguia encaixar a boquinha do bebê de plástico em seus seios de carne e dar de mamar ao bebê.
Ela acreditava ter a sensação descrita por muitas mulheres sobre a primeira amamentação. Sentia na pele: dor, prazer, plenitude. Só que daquele seio não saía leite.
Ficava o tempo todo com a boneca - bebê. Nunca percebeu nenhum dos olhares de reprovação que a julgavam louca ou analisavam seu caso.
Foi feliz com a sua boneca - bebê até o dia em que, no ônibus, uma outra mulher e seu bebê de verdade sentaram-se ao lado dela. A moça não conseguia tirar os olhos daquela mãe com seu filho nos braços.
Perdeu seu ponto de descida vidrada que estava. Nada mais importava, apenas o movimento de sucção daqueles pequenos lábios no bico intumescido e inflado daquela mulher.
Ficou profundamente ofendida. Largou sua criança de plástico no banco para sair pra nunca mais. A outra mulher com seu bebê de verdade, sem nada entender, ainda tentou avisá-la do esquecimento. A moça voltou e cuspiu no rosto dela.
A mulher com seu bebê de verdade levou consigo a boneca.
Adotou a criança de plástico que decorou pra sempre o quarto de seu filho. Fim.
Ela acreditava ter a sensação descrita por muitas mulheres sobre a primeira amamentação. Sentia na pele: dor, prazer, plenitude. Só que daquele seio não saía leite.
Ficava o tempo todo com a boneca - bebê. Nunca percebeu nenhum dos olhares de reprovação que a julgavam louca ou analisavam seu caso.
Foi feliz com a sua boneca - bebê até o dia em que, no ônibus, uma outra mulher e seu bebê de verdade sentaram-se ao lado dela. A moça não conseguia tirar os olhos daquela mãe com seu filho nos braços.
Perdeu seu ponto de descida vidrada que estava. Nada mais importava, apenas o movimento de sucção daqueles pequenos lábios no bico intumescido e inflado daquela mulher.
Ficou profundamente ofendida. Largou sua criança de plástico no banco para sair pra nunca mais. A outra mulher com seu bebê de verdade, sem nada entender, ainda tentou avisá-la do esquecimento. A moça voltou e cuspiu no rosto dela.
A mulher com seu bebê de verdade levou consigo a boneca.
Adotou a criança de plástico que decorou pra sempre o quarto de seu filho. Fim.
segunda-feira, maio 30, 2011
back in the ussr
Sozinha na casa dele me lembro da minha geladeira russa: um pequeno espaço entre as partes de uma mesma janela a apoiar leite e suco de frutas.
Na vista daquela janela, meus poucos produtos - somente aqueles que podia carregar do supermercado ao alojamento - e o branco da neve ao fundo.
Nunca me senti tão triste e melancólica como me senti na Rússia.
Os curtos períodos de Sol, a brancura do inverno e toda aquela paisagem que insistia em me fazer retornar à infância.
A impressão de que a qualquer momento a bruxa ou a fada da neve me buscariam em seus trenós e me enforcariam com seus longuíssimos cabelos, eu e a minha angústia.
A nostalgia de meu pai comunista e da minha mãe que, nos anos oitenta, falava russo. Os desenhos do livro onde ela aprendia a língua, as frases que me ensinava -мать, купить вишни? .
Jhon Reed e os 10 dias que abalaram o mundo, a Internacional Comunista que por obra do meu pai tocou no lugar do tradicional "Parabéns para Você" no meu aniversário de 8 anos, se encontravam com a pequena marcha de 8 ou 10 socialistas que vi pelo Kremelin.
E a todo canto, desenhos de lendas e fadas da neve pintados a ouro nas caixinhas de madeira.
Voltando ao frio de hoje e à casa dele: já não sou mais Cachinhos Dourados por aqui... já tenho gavetas, gatos e a baixa temperatura me traz memórias russas. Memórias de quando eu fazia charme para agradar meu pai e torcia pra “Coviótica” nas Olimpíadas.
E, sincronicamente, o símbolo daquela Olimpíada era um urso “coviótico - soviético”.
Mas hoje a Cachinhos Dourados não só toma a sopa do urso, mas faz planos com ele de constituir família.
Na vista daquela janela, meus poucos produtos - somente aqueles que podia carregar do supermercado ao alojamento - e o branco da neve ao fundo.
Nunca me senti tão triste e melancólica como me senti na Rússia.
Os curtos períodos de Sol, a brancura do inverno e toda aquela paisagem que insistia em me fazer retornar à infância.
A impressão de que a qualquer momento a bruxa ou a fada da neve me buscariam em seus trenós e me enforcariam com seus longuíssimos cabelos, eu e a minha angústia.
A nostalgia de meu pai comunista e da minha mãe que, nos anos oitenta, falava russo. Os desenhos do livro onde ela aprendia a língua, as frases que me ensinava -мать, купить вишни? .
Jhon Reed e os 10 dias que abalaram o mundo, a Internacional Comunista que por obra do meu pai tocou no lugar do tradicional "Parabéns para Você" no meu aniversário de 8 anos, se encontravam com a pequena marcha de 8 ou 10 socialistas que vi pelo Kremelin.
E a todo canto, desenhos de lendas e fadas da neve pintados a ouro nas caixinhas de madeira.
Voltando ao frio de hoje e à casa dele: já não sou mais Cachinhos Dourados por aqui... já tenho gavetas, gatos e a baixa temperatura me traz memórias russas. Memórias de quando eu fazia charme para agradar meu pai e torcia pra “Coviótica” nas Olimpíadas.
E, sincronicamente, o símbolo daquela Olimpíada era um urso “coviótico - soviético”.
Mas hoje a Cachinhos Dourados não só toma a sopa do urso, mas faz planos com ele de constituir família.
quinta-feira, abril 14, 2011
crianças de apartamento
Já adulta esqueci as chaves de casa. Sai com rapidez para fazer as unhas, não levei documento, carteira, somente o dinheiro pra pagar a manicure. Sai para voltar logo.
Voltei: a porta trancada, silêncio do lado de dentro. Havia "me esquecido para fora de casa". Fiquei no hall do prédio, sentada no sofá-de-couro-velho-de-ninguém da sala de estar do edifício. As pessoas subiam e desciam de tempos em tempos. O porteiro, gentil, veio perguntar se eu precisava de algo, se queria almoçar me apontando a marmita. Eu, impaciente, esperava alguém chegar para me salvar.
O menino de óculos e gibis na mão desceu. Sentou no sofá em frente ao meu e entediado no seu longo segundo mês de férias, lia.
Lhe perguntei algo sem importância: ele e o irmão mais velho estavam sozinhos em casa, esperavam os pais que trabalhavam. O irmão mais velho não queria brincar, o menino mais novo entediado desceu pra ler gibi. E ali ficou.
E ali fiquei olhando o menino.
Depois de algum tempo, o menino se cansou dos gibis. Deixou-os de lado e foi conversar com o porteiro.
Nesse instante, me lembrei de mim: era eu essa criança na cabine do porteiro entediada com a cidade. Era eu que queria brincar de porteiro, atender interfones, apertar o botão para o portão automático se abrir. Era eu que ouvia as histórias dos porteiros - dos montes japoneses do Seu Akiro a incrível história das pernas gigantes e inchadas do Seu Humberto. Era eu que conhecia cada cantinho do meu prédio de criança, sabia do horário dos moradores. Era eu que tinha longas tardes livres deitada de bruços com os pés para cima.
E me lembrei, também, da solidão feliz que às vezes vive uma criança.
E naquele momento eu era aquele menino de óculos esperando por mais um "Almanacão de Férias da Turma da Mônica". E, ainda hoje, quando encontro o menino no hall do prédio vestindo o uniforme do judô, esperando que sua mãe o busque, nos olhamos com cumplicidade. Compartilhamos da mesma solidão de uma tarde em um prédio de apartamentos.
Voltei: a porta trancada, silêncio do lado de dentro. Havia "me esquecido para fora de casa". Fiquei no hall do prédio, sentada no sofá-de-couro-velho-de-ninguém da sala de estar do edifício. As pessoas subiam e desciam de tempos em tempos. O porteiro, gentil, veio perguntar se eu precisava de algo, se queria almoçar me apontando a marmita. Eu, impaciente, esperava alguém chegar para me salvar.
O menino de óculos e gibis na mão desceu. Sentou no sofá em frente ao meu e entediado no seu longo segundo mês de férias, lia.
Lhe perguntei algo sem importância: ele e o irmão mais velho estavam sozinhos em casa, esperavam os pais que trabalhavam. O irmão mais velho não queria brincar, o menino mais novo entediado desceu pra ler gibi. E ali ficou.
E ali fiquei olhando o menino.
Depois de algum tempo, o menino se cansou dos gibis. Deixou-os de lado e foi conversar com o porteiro.
Nesse instante, me lembrei de mim: era eu essa criança na cabine do porteiro entediada com a cidade. Era eu que queria brincar de porteiro, atender interfones, apertar o botão para o portão automático se abrir. Era eu que ouvia as histórias dos porteiros - dos montes japoneses do Seu Akiro a incrível história das pernas gigantes e inchadas do Seu Humberto. Era eu que conhecia cada cantinho do meu prédio de criança, sabia do horário dos moradores. Era eu que tinha longas tardes livres deitada de bruços com os pés para cima.
E me lembrei, também, da solidão feliz que às vezes vive uma criança.
E naquele momento eu era aquele menino de óculos esperando por mais um "Almanacão de Férias da Turma da Mônica". E, ainda hoje, quando encontro o menino no hall do prédio vestindo o uniforme do judô, esperando que sua mãe o busque, nos olhamos com cumplicidade. Compartilhamos da mesma solidão de uma tarde em um prédio de apartamentos.
sexta-feira, março 18, 2011
segunda-feira, setembro 27, 2010
domingo, setembro 26, 2010
saltos mortais e caminhos
1 - Dois anos depois isso ainda faz sentido:

2 - A menina estudou até o pré numa escola que se chamava "Caminho Aberto". Todos os dias vestia a calça vermelha e a camiseta branca que estampava o nome da escola, também em vermelho, do lado esquerdo na altura do coração. Todos os dias, "Caminho Aberto" estampado em seu peito. Só agora entendia: caminho certo é aquele que se escolhe e se assume como seu. E quando assim acontecia, o caminho se abria.

2 - A menina estudou até o pré numa escola que se chamava "Caminho Aberto". Todos os dias vestia a calça vermelha e a camiseta branca que estampava o nome da escola, também em vermelho, do lado esquerdo na altura do coração. Todos os dias, "Caminho Aberto" estampado em seu peito. Só agora entendia: caminho certo é aquele que se escolhe e se assume como seu. E quando assim acontecia, o caminho se abria.
segunda-feira, agosto 30, 2010
pausa
Desculpem os que aqui me visitam pela falta de posts. Acontece que a vida anda parecendo ficção e o peito em sobressalto tem tempo apenas de absorver o que acontece... sem transformar, por hora, em palavras escritas... Logo mais refloresço.
sábado, agosto 14, 2010
sexta-feira, agosto 13, 2010
pra onde vão as pessoas que eu invento?
Te olho de costas e vejo um outro. Não te conheço, mas sua forma e imagem me sugerem alguém que só tem vida dentro de mim. Sempre gostei de inventar pessoas. E por gostar muito de gente, me tornei atriz.
E escondida, ainda menina, na pequeniníssima lavanderia da primeira casa onde morei, fechava os olhos pra pegar desprevinida toda essa gente que aqui dentro existia (e ainda existe).
Queria eu poder reunir numa mesa bem grande, farta de comida boa, toda essa gente que coleciono.
E escondida, ainda menina, na pequeniníssima lavanderia da primeira casa onde morei, fechava os olhos pra pegar desprevinida toda essa gente que aqui dentro existia (e ainda existe).
Queria eu poder reunir numa mesa bem grande, farta de comida boa, toda essa gente que coleciono.
quarta-feira, agosto 11, 2010
terça-feira, agosto 10, 2010
ponto focal
Não gosto de tons excessivamente poéticos e de quem se esforça por falar coisa bonita. Poesia pra mim é igual a miopia, ou o olhar já nasceu enviezado - e a imagem é transformada antes mesmo de chegar à retina - ou se vê o esforço de quem quer ver pássaro em qualquer canto. Acho chato, piegas.
terça-feira, julho 27, 2010
pedagogia divina
No dia em que se separou a mulher cortou o dedo. O corte foi desaparecendo devagar, assim como a dor da ruptura: sorte daquela mulher. Pedagogia divina! Machucado sempre sara, cicatriza. Quase sempre deixa marca. De algumas a gente gosta e até se orgulha da história da ferida. Outras incomodam. Mas invariavelmente antes ou depois de casar, sara!
quinta-feira, julho 22, 2010
o conselho que miranda july se daria... se pudesse dar um conselho a si mesma no passado
"Tente lembrar que depois deste dia haverá outro e outro. Este não é o único dia em que você sentirá algo, então guarde alguns sentimentos para os outros dias, ao contrário disso eles serão longos e vazios. Não é nem um pouco uma boa ideia usar seu cabelo para cima, faz você parecer a esposa de um presidente. Especificamente, Eleanor Roosevelt. Fora isso – tentar sentir muito e usar seu cabelo para cima –, você fará tudo certo hoje. Mas, como de costume, você achará que está fazendo tudo errado, então a parte final de meu conselho para você é: você não está."
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