quarta-feira, novembro 05, 2008

o homem das cores concretas

Em busca da fantasia que faz meu mover em corrente sanguínea; ligo o rádio, vou à Itália e deixo minha alma sem morada. Longe, longe. Fora, fora. Depressão pós cor-de-rosa! Meu vermelho intenso me cobra, pede para ser olhado e explorado.

quinta-feira, outubro 16, 2008

Deus

Deus, permita ao meu homem chorar, assim como ele sorri.

sábado, agosto 23, 2008

da exposição e outros demônios

Os olhos fecham e deliciam-se com o detalhismo do que existe aqui dentro: riqueza de cores, pontilhismo interessante. Devagar, sem que ninguém note, beijo meu braço direito. Minha pele é quente, viva. Sigo em frente, apaixonada. Comigo em mais alta conta. Difícil é dividir esse valor com o mundo. A exposição é o capeta! Minha timidez detém passo firme.

domingo, agosto 10, 2008

assim me salvo


foto: Renata Velguim

salvação

Escrever para tentar margear o rio. Direcionar seu curso. A ausência de palavras nesse espaço acontece porque o teatro tem margeado minha vida. E como a nascesnte é selvagem, ainda não sei fazer uso das duas linguagens ao mesmo tempo. Mas é tudo matéria de salvação, vêm e saem do mesmo saco!

ofensiva

Sem nenhum ritual, como faço todos os dias, abro a porta do armário para sem muito escolher me vestir para o dia. Meu rosto me surpreende refletido no espelho: não sou quem há muito pensava. Meu rosto me desmente, me desautoriza. Assim, face neutra, cara-a-cara comigo, sou minha inimiga. O sorriso habitual destempera a face escondida. Sou séria, olhos grandes. Minha boca é ofensiva, meu olhar é ofensivo. Os anos passando revelam uma mulher há muito escondida. Sou surpreendida com a agressividade tão distante da minha famosa suavidade. Sou mulher de choro alto com olhos que rasgam minha pele para ver o mundo e, às vezes, o ofendo com a composição irregular que sou.

quarta-feira, junho 25, 2008

para bia

Ela disse que seria assim, uma vida por olhos de jabuticaba.
O que esses olhos viam eram apenas contornos. O que esses grandes olhos sentiam era inexpremível a olho nu. Era uma segunda natureza, um olhar de raio x que atravessa o que é visto. Ela era dessas pessoas que estão junto de ti e no segundo seguinte já foram, não estão mais. Havia nela um vazio que nem ela alcançava. Quem quisesse mergulhar nos seus olhos de jabuticaba, teria de se esquecer de si. Eram olhos tristes. Olhos enevoados, formados por minúsculas partículas de água. Olhos em suspensão, prontos para o sumiço repentino. Porque em silêncio, a qualquer momento, a dona desses olhos olhava para dentro e desaparecia. Tinha um pé de jabuticaba dentro de si. E pra lá ia, dentro dela mesma em usufruto próprio a chupar jabuticabas. Suas frutas em botão.

quarta-feira, abril 30, 2008

roma

Tinha uma imagem de si de terceira pessoa. Ela era ela, mas também não era. Sabia que em algum lugar de sua personalidade mais profunda, havia um ser que tudo sabia e nada escondia.
Gostava de imaginar o que aquele super-ser faria quando a dúvida aparecia.
Às vezes, agia como quem esconde de si sua parte mais concisa e competente. Para aquela parte dela que em nada excedia, o mundo estava extremamente justo e de acordo. O desafio estava em se deixar guiar, cada vez mais, por essa inteireza. Abrir mão do que, um dia, disseram ser ela.
Fácil era abrir mão das fantasias alheias sobre o que ela seria. Difícil era destruir forma e conteúdo do que ela própria construiu para si; e se contentar em ser a grande ruína dela mesma. E seria tão bela, como belas são as ruínas de outras civilizações. Talvez mais belas e mais genuínas do que foram em atividade, mas agora com a austeridade própria das coisas que permanecem.

os outros

Tentava uma palavra e não acontecia. Concatenava uma palavra com outra e a frase não nascia. Depois de dedilhar inutilmente os dedos pelo teclado do computador, concluiu: existem os momentos de leitura e existem os momentos de escrever. Agora só podia ler porque a mágica da união das palavras não se fazia. E ler uma obra inteira de determinado autor dava uma certa confusão de linguagem. Um mal estar de se sentir um outro.

sexta-feira, abril 25, 2008

maneirismo

Acho bonito: seu sorriso, sua fala, seu jeito de andar, seu jeito de atender ao telefone, o modo como abre a porta do carro, a maneira como dorme, os trajes esfarrapados com que dorme, a maneira como prepara a comida, a voz suave que faz para falar com os bichinhos, suas unhas nunca feitas, seu mau humor matinal, sua timidez travestida de antipatia, a insegurança que vez por outra assola sua vida, as personagens que vive e inventa pra si mesma, sua transparência que não a ajuda a disfarçar seus desencantos e bravezas, seu lado fanático, sua porção descrente, o modo como muda de opinião facilmente quando admira o dono do novo argumento, sua preguiça em ler jornais, seu encanto por cinema, a maneira desregrada com que lê mil livros ao mesmo tempo, seu pavor em atender telefonemas, seu medo de fracassar, seu interesse por adivinhar a próxima música que vai tocar na rádio, sua fixação por certas pessoas, seu amor dedicado e interessado, o modo como escreve o nome de toda a família ao falar ao telefone, sua desproteção, sua suavidade, sua agressividade (que assusta pessoas desavisadas e crentes na sua habitual suavidade), seu medo de ladrão, sua coragem para matar baratas, seu destempero com certos tipos de mulheres, seus talentos, seu despreparo, sua mágoa, sua mágica de adolescente, sua crença em precisar do outro, sua força em dizer não.

criação

Nada a fazer, a não ser viver essa maré de água funda. Já me disseram que isso é excesso de energia criativa. E que, quem não faz obra de arte acaba fazendo filhos. O que não deixa de ser uma expressão de genuína criatividade.

terça-feira, abril 01, 2008

profissão de fé

O menino me disse que, quando crescesse, seria lixeiro ou caixa de supermercados. Achei bonito. Escolha de coração; pelo simples prazer e fruir da atividade. Pelo gozo da brincadeira. Lembrei de um tempo em que meu deleite era observar vendedores a fazer pacotes de presentes. Em casa, embrulhava todos os mimos que apareciam. Meu sonho era ter um porta durex profissional, como os que via nas lojas. E naquele tempo seria feliz em dedicar minha vida a papéis, durex, laços e posterior alegria do presenteado.

quinta-feira, março 27, 2008

troca de pele

Então trocaremos de identidade. Você me dita palavra e eu te ensino a namorar. Empresto meu corpo jovem, em bom estado e com pouco uso, para seres de novo por esses tempos de tecnologia e poesia concreta. Você me deixa passear pela orla e me atrever a viver paixão e fogo. Assim, respondo a pergunta "como é que ela sabe de tudo?". E se um encontro for pouco, te digo.
Agora sinto você perto de mim e me dá medo. Sei que aceitou a proposta e que chegará no próximo táxi amarelo. Também sei que não se vive uma vida assim impunemente: a comer bananas adocicadas com canela em plena segunda-feira à tarde. Bananas têm mistérios das savanas. E tardes... bem, as tardes são nossos horários prediletos, não é minha dileta amiga?

anonimato

Um desconhecido, me olhando na rua, fez com que eu me sentisse completamente anônima. Ele me olhou de modo tão forte e atento, que me senti muito estranha a mim mesma. Tentei inutilmente visualizar o que seria e expressaria meu rosto. Senti no olhar apurado do homem, retrato fiel do que sou eu. E sendo mais alheia a mim do que a ele, atravessei a rua de cabeça baixa com imenso respeito a meu ilustre desconhecido.

domingo, março 16, 2008

auto ajuda

Aquele que sofre de elevada vida interna não deve deitar-se a cama em manhãs, tardes ou noites vazias. O pensamento vai, voa a lugares esquivos e faz troça do dia-a-dia. Nesses momentos, lavar a roupa auxilia muito. Varrer a casa, melhor ainda. Tudo o que te mostre o duro peso do trabalho braçal ajuda. E traz um leve e trivial prazer de tarefa cumprida. É tiro e queda.

me, mi, comigo

Hoje revelei um segredo que escondia de mim mesma. Resolvi me contar e compartilhar comigo surpresa e susto.

quinta-feira, março 13, 2008

mal-do-século

Quando uma frase não se faz é melhor abrir caminho. Quero falar de algo íntimo e secreto, mas não quero que me notem. Então, só digo que amo e do amor me faço toda. Exasperação e calmaria.

sinestesia

Bonjour. Te acordo com o gosto de ontem.

a minha voz

Um canto bem apertadinho. Voz aguda saindo de mansinho, arranhando e apertando minha garganta. Sentindo falta de ar, vou completando a inviável canção que meu peito pedir pra eu cantar. Não são fagulhas, nem choques de cores e notas. É uma voz preto e branca mesmo. Inconsistente e tímida. Que na sua grandeza, disfarça: faz denguinho e dissimula frágil presença. Um dia chego lá, no lugar que realmente se esconde minha voz, e só vou querer saber de cantar samba canção!

segunda-feira, março 03, 2008

estória de princesa para crianças-meninas (meninos também podem ler e não tenham pudor em gostar)

Porque era filha do Sol e da Lua não podia andar pelo mundo sozinha. Andava em carruagens de mãos apertadas e dedos entrelaçados com os do Sol e os da Lua. Sempre no banco de trás.
Nunca respondia por si. Quando achava que dizia algo próprio, tinha por de trás os raios do Sol e a luz da Lua a lhe imprimir ritmo e magia.
Se tinha pesadelo, o Sol ou a Lua vinham lhe acalentar.
Uma vez, deu de andar na rua. Voltando pra casa, na ausência do Sol e da Lua, sua pele toda empipocada pedia algodão com água fresca. Tinha alergia de andar sozinha.
Sendo filha do Sol e da Lua, tinha encantos e anéis de saturno.
O tempo passou para a filha do Sol e da Lua. Passou. Passou. E, sem saber que o amanhecer chegaria naquele dia, ela abriu todas as janelas. Sendo filha do Sol e da Lua, tinha poderes e aleluias. Só não sabia. Determinou que não teria alergia, saiu só e maravilhas: mais fortes eram os dons da filha do Sol com a Lua. Só que ela não podia imaginar no meio da escuridão e confusão que eram razão do encontro do Sol com a Lua. Era esplendoroso estar sozinha, escolher se para a direita ou para a esquerda. Desprotegidamente protegida por ela mesma. Sendo ela inteira, era cada vez mais parte do Sol e da Lua, mas se bastava sozinha.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

a festa do jardim

A próxima festa que der em casa pedirá outra colaboração ao invés das já tradicionais bebidinhas. Pedirei aos amigos plantas para o jardim. Com vaso, terra e semente. Cada planta poderá ser batizada pelo gentil padrinho. E assim se fará o jardim.

o caderno dos sonhos

Meu filho terá desde pequeno um caderno dos sonhos. Assim que ele tiver idade suficiente para entender que sonha (se é que em algum momento a gente precise entender isso), o caderno terá início. Todos os dias perguntarei pelo sonho. Enquanto meu filho não souber escrever, escrevo eu mesma e a ele cabe o desenho do sonho. Quando o pequeno já souber escrever, será dele a tarefa. Como mãe que cobra diariamente lição de casa, eu cobrarei sonhos.

domingo, fevereiro 03, 2008

do viver para morrer e vice-versa e versa-vice

No dia em que me encontrei com Buda, ele me disse: use sua vida para se preparar pra morrer.
Eu instantaneamente, como faço a 29 anos ao ouvir a palavra morte, bati 3 vezes na madeira. Buda, gordo como um rei momo, sorriu e me disse: A morte é um espelho que reflete vida. Eu, então, pensei: pobre de mim, brasileira de mão cheia, tão distanciada de mim mesma.
Sentei, então, uma tarde e uma noite em "Yoga mudra", a postura em que Buda atingiu a iluminação. E meditei... Meditei, meditei, meditei, me editei. Vi contas a pagar, louça pra lavar, a borracha do para brisas que tá na hora de trocar, luzes, ondulações, vontade de fazer xixi, perna dormindo, bebê sendo parido, meu pedaço de madeira para isolar as besteiras, arroz com feijão, espaço vazio, dor, prazer, tesãozinho, Caetano Veloso cantando "Leãozinho", beijei todos os seres, espaço vazio, branco, branco, branco, branco e o Buda-momo sorriu.
Saindo da estante da minha avó, lá escondidinho entre santos e orações, o Buda-momo dourado, sentado em notas de dinheiro (para que nunca faltasse, dizia minha avó) foi crescendo, virou luz e deitou no meu colo. Ninei o Buda por uma manhã, duas tardes e uma noite. Questionava o coitado: sou filha de comunista, minha avó é benzedeira, minha mãe sabe de tudo do que está oculto e morre de medo. Se só a prática espiritual ajuda a compreender e encarar a morte, dando um significado real para a vida, e para a própria morte, como posso agir? Viro monja no Tibete ou sento praça em Taubaté? As duas coisas? Ou não? Se é que você me entende parceiro...
Buda dessa vez não sorriu e eu fiquei insegura. Não agradei. Ele, então, se desmaterializou. Virou um peixe e me ensinou o Yoga (foi generoso e me mostrou o Hatha e o Ashtanga Yoga). Depois que estava cansda e suada, voltou em forma de rã e me apresentou Pedro San, o massagista. Mais tarde, quando já tinha meus ossos vivificados pelo amor do massagista; Buda me apontou uma estrada que levava a Miguel Pereira. Lá pude ver as coisas como elas realmente são, em silêncio profundo e harmonia com os insetos. Buda se transmutou novamente e virou uma colher de pau e como misturava os alimentos!
Foi me instruindo por dias a fio e eu entendi: o hábito faz o monge, como já dizia outro iluminado, Mr. William Shakespeare.

Evoé, grande Buda! Namastê, sir William.

sábado, fevereiro 02, 2008

jael

sábado, janeiro 26, 2008

kindergarten

Ela não falava a minha língua. E nem eu a dela. Durante os sete dias em que passei na Áustria, numa cidadezinha de nome impronunciável, uma criança de dois anos foi meu modo de sentir e olhar para o mundo.

Seu nome era Jael, tinha finos cabelos loiros e olhos de um azul brilhante, como não poderia deixar de ser.

Ela estava no kindergarten na manhã em que eu cheguei à sua casa para permanecer ali por mais sete dias. No começo me estranhou. Acusava-me de ler os livros da mãe dela, de me sentar e dormir na casa dela. Eu tentava me comunicar. Sua língua era um alemão dadaísta que eu tampouco compreendia. Buscava um sorriso e nada, seu olhar de acusação permanecia.

Na noite do primeiro dia, enquanto jantávamos, resolvi pegar em sua mão. Ela aceitou e de mãos dadas percorremos toda extensão da pequena casa em que estávamos até chegarmos à caixa de lápis de cor. Ela, então, me deu papel para que nós duas desenhássemos. E assim fizemos até o momento em que ela foi dormir. Naquele ponto ela já tinha entendido que eu era uma amiga diferente, literalmente de outro país.

Desenharmos juntas nos fez companheiras. Então Jael, me levava para onde ia. Trazia livros de histórias para que eu lesse. Eu as contava em português e ela ouvia atenciosamente. Um dia como que por milagre perguntei: "cadê o gato?". Inesperadamente, ela apontou para o lugar exato do livro onde o gato estava e me fez compreender que entre nós havia outra língua sendo dita e sentida.

Todas as manhã, ela me acordava com um longo abraço. Mexia na minha corrente cheia de amuletos e me pedia coisas, em alemão. Eu realizava o que intuía e assim fomos nos dando muito bem.

Um dia ela me pediu algo que não compreendi. Ela, então, pediu à sua mãe que me explicasse; queria que eu a levasse ao kindergarten. Lá fui eu. Jael entrou muito excitada na sala de aula, começou a chamar todos os colegas e lá me apresentou para todos. Eu era o brinquedo que ela acabara de ganhar, um brinquedo muito diferente. Tive de ir embora e ela ficou frustrada. Mesmo assim me deu um beijo de despedida.

Voltar da escola significava, para ela, voltar pra mim. E eu confesso que ansiava também por sua volta. De tanto chamá-la de "coisa linda", no aeroporto, quando partia, foi assim que ela me disse adeus, coisa linda! E então, no sétimo dia, Deus inventou a linguagem do coração.
E eu chorei e sorri.

sábado, dezembro 22, 2007

crua

Hoje acordei como quem pede missa. Pra que silêncio possível, se o que quero é o silêncio impossível? Aquele silêncio que muda o significado das coisas e faz do calor, frio. E do frio, chocolate quente para suavizar a vida da gente. Difícil mesmo é acordar e ser firme, viver sem chocolate quente. Desiludir frente aos iludidos e esse mundo de ilusões. Meu lugar é onde a vida é de verdade e a gente sabe que vai morrer. E viver fica finalmente colorido, vira filme de aventura com direito a beijo de amor do mocinho e letreiro com o nome meu.

rascunhos

Pode deixar que eu conto. 05:33:00
Eu vi um espetáculo que falava dela. 02/12/07
Buena dicha. 21/07/07
Comprei um chapéu vermelho no centro da cidade. 04/03/07


quarta-feira, dezembro 05, 2007

canção dos 17

Cheguei ao início da noite de hoje como criança que precisa gastar energia. Só então saí a rua e percebi que meu corpo pedia movimento, pedia olhar e ser olhada. Andando pelas ruas revivi minha canção dos 17 anos. Lembrei de um tempo em que era apenas olhar para um outro, que já queria ser esse outro de tanta compaixão que sentia pelas pessoas que me eram estranhas.
Hoje precisando gastar energia fui me consumindo e querendo dançar no corpo dos outros. Lembrei da minha canção dos 17 e de como comemorei meu aniversário de 17 anos no dia 17. Lembrei que meu pai me deu 17 rosas vermelhas. E de como eu não queria que meu namorado de quando tinha 17 anos, estivesse presente na minha festa de 17 anos. Não cabia um outro homem senão o que me salvaria, o que me redimiria. Mas ele foi, comeu um pedaço do bolo de maracujá e não me redimiu. Ainda hoje acredito que um homem me redimirá. Sei que não é possível, mas lá bem longe onde meu peito canta a minha canção dos 17 espero o meu salvador.
Hoje precisava gastar energia como cão que fica trancafiado dentro de casa. Saí a rua e meu maior ato de violência possível foi pisotear uma bexiga branca que estava abandonada na rua.

sexta-feira, novembro 30, 2007

sobremesas afetivas

Minha nova vegetarianice compreende uma árdua batalha contra um dos maiores venenos que a humanidade já foi capaz de inventar, o açúcar! Entre o ser ou não ser doce e uma dentada num bolo de chocolate, parafraseio a famosa frase de Clarice: Mas já que se há de evitá-lo, que ao menos não se esmaguem com dietas as sobremesas afetivas.
Porque pudim de leite e pinholata são fundamentais! Parte do meu legado familiar e ninguém faz como elas.
Lambuzarei meus dedos e minh' alma com prazer e devoção! Amém avós! No Natal me permitirei ter esperança e um gosto doce na boca. No dia em que o Cristo nasceu a esperança de amor e paz entre os homens se renova também, e é doce como doce de vó.

clarice lispector

"Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas."

quinta-feira, novembro 29, 2007

vale a pena

É lindo, lindo, lindo.
Clique e assista.

domingo, novembro 25, 2007

água viva

Desde pequena causava inundações. Esquecia a torneira ligada e inundava o apartamento do sétimo andar para desespero de sua mãe e do vizinho do sexto andar. Eram constantes rodos, panos e baldes a apagar vestígios de seu samsara infantil.
Cresceu e foi morar numa casa amarela. Os três primeiros anos de morada foram repletos de acidentes que destruiram pintura de parede e a estante de livros: era a chuva que furava a barreira das portas e alcançava o interior da tal casa amarela, a banheira que vazava água pelos azulejos, o filtro de água que fazia música com o respingar das gotas, além das infinitas mangueiras quebradas pela violência com que a água pedia pra sair naquela casa.
Nos últimos tempos, como se não bastasse, deu pra sonhar com alagamentos. Sonhava que vivia numa terra-oceano, onde em horror e devaneio sua pele virava escama. Acordava assustada e ia tomar banho. Limpava com dedicação cada pedacinho de seu corpo. Tomava então um copo d' água e tentava desesperadamente voltar a dormir.

Esse quase-conto não tem fim porque essa mulher sou eu. E acaba de acordar de mais um aguaceiro. Clamo por ajuda e peço auxílio dos bombeiros pois o homem que dorme ao meu lado, o mesmo que um dia em criança quase incendiou a área de serviço do apartamento de seus pais, sonha nesse instante com chamas e labaredas.

domingo, novembro 18, 2007

prosopopéia

Hoje, ela me pediu forte e urgentemente que a lesse. Abri numa página qualquer rogando salvação. Ela, então, me jogou uma sentença e me alertou para o quanto se pensa em dia de casa vazia. A casa está vazia, tem restos do almoço de ontem. É necessário vigília.

adolescentes

Ele: Me conta um segredo seu?
Ela: (risos). Acho que não tem quase nada meu que você não saiba. Sem graça, né?
Ele: Dúvido.
Ela: Hum...
Ele: Vai.
Ela: Já sei.
Ele: Conta!
Ela: Era dramática quando pequena, me escondia na cozinha pra experimentar me matar com faca de requeijão.
Ele: Ninguém experimenta se matar. É mata ou não mata.
Ela: Eu experimentava, não era uma tentativa séria e nem eu era uma criança suicida. Porque a gente é da vida, né? Mas queria ver o que aconteceria se eu morresse.
Ele: Mas você não morria e o que acontecia?
Ela: Ficava com medo de mim.
Ele: Eu sempre me imaginava morto. Me via no túmulo e toda minha família ao redor chorando por mim.
Ela: Quando eu tava na quinta série, minha amiga Júlia sonhou que eu morria e que só ela ia no meu enterro. Nunca esqueci disso.
Ele: Nunca tentei me matar e acho esse tema cansativo. Viadagem.
Ela: Mas tem gente que sofre de verdade.
Eles: (silêncio)
Ela: Agora você, um segredo que eu não saiba.
Ele: De verdade? Você vai achar que já disse isso mil vezes e que não é segredo, mas desse jeito crescente...
Ela: Fala.
Ele: Eu te amo e é agora.

quinta-feira, novembro 15, 2007

.

O resto é ponto final.

cravou o punhal no coração do inimigo

Já dormia aquele meu sono esquisito, aquele que todo dia antecede a chegada dele debaixo dos lençóis. Ele então, em segredo nosso, fez um pacto comigo.

Então, sonhei que retornava a minha terra natal e que lá, em praça pública, travava um duelo de facas e lanças. Eram 2 contra 2. Um homem estava ao meu lado e lutava comigo contra aquela espécie de coronel do agreste, acompanhado de seu capanga. Era agressiva. Tinha medo e coragem. Matava aquele bicho-homem que me acompanha só por me chamarem como me chamam, Gabriela. E ter o cheiro de cravo e a cor da canela.

terça-feira, novembro 06, 2007

dengo

Hoje você fez visita num sonho que era só meu. Mas depois me lembro que você sou eu e que em algum momento colei meu peito ao bater do seu. E se você sou eu, e me relembra ritmo e harmonia de querer bem, hoje sonhei comigo e me amei feliz.

sábado, novembro 03, 2007

déjà vu

Então viver era isso, um grande esquecimento! E o desafio estava dado, lembrar-se de quem se era.

sábado, outubro 13, 2007

borgia

A autora deste blog viaja por tempo indeterminado. Certa de seus passos vagarosos e incerta de por onde esses passos caminharão; escreve neste espaço quando seu peito e sua inteligência, muito solicitados esses tempos, permitirem digestão e alguma inspiração daquilo que seus olhos vêem e seus ouvidos escutam. Manda lembranças da terra de Borgia, paesino descoberto e explorado pelos gregos antes mesmo da antiga Roma, solo encantando e povoado pelos seres mais solicitos que já pisaram nesta terra de meu Deus. Grata e feliz, agradece aos que aqui já passaram, passam e passarão. Breve escritos se farão. À presto,
Gabriela mais Cordaro do que nunca.

terça-feira, agosto 28, 2007

o pé

Quero que cuides de mim como quando cuidou daquele pé de feijão nascido em algodão, lembra? E como esperou que ele crescesse para levá-lo à escola em copinho de café e, depois, deixá-lo timidamente na mesa da professora! Luxo é se tratar como coisa que cresce e se alimenta em água e algodão.

carandage

A menina e sua caixa de lata com lápis aqurelado. Infinitas cores.
Uma vez um homem bronco olhou a caixa e, com desdém e mau humor, fez pouco das cores e dos lápis da menina: "Pra que tantos, uns 10 lápis já nao seriam suficientes?". A menina não gostou e saiu de perto daquele homem. Muitos anos depois, a resposta se faria e engasgada sairia do coração da menina: "Servem para pintar os campos de girassóis e trigo de Espanha. E a matiz é aquela que vai do verde ao amarelo e são infinitas as delicadezas de cores de campos tão áridos e a possibilidade de brotar coisa mais viva como um girassol".

Para minha irmã Juliana, com amor e saudade.

segunda-feira, agosto 06, 2007

brahma, vishnu e shiva

A cada passo construo a pessoa que quero ser. A verdadeira essência é criação, atitude e mudança.


Sevilla. Plaza de España.

quarta-feira, agosto 01, 2007

requena

Aqui permaneces e permaneço. Tudo me foi guardado. Arquitetura sagrada que me leva a abrir as janelas para a luz forte que bate aqui. Estou preparada, podes vir. Agora já sei de onde vim.

duende

De repente me lembro de quem fui. É que a vida deixa pistas nas vistas de outros tempos. Meu nome estava gravado em árabe antigo pelas ruas daqui. Esperava minha visita para que o tesouro fosse redescoberto. Aqui estou.

maktub

Se um dia não souber pra onde ir, já tenho Granada como cidade minha.

recuerdo

Achei minha alma que estava perdida em Granada. Vagando por dias e noites, minha alma ansiava pelo reencontro com esse meu corpo de agora. Como criança que foge com o circo, abandonarei tudo para dançar nas ruas de Albaicin.

domingo, julho 29, 2007

gaudi

A próxima palavra é uma curva.

domingo, julho 15, 2007

o que tinha de ser

Entre a fraqueza e o mal estar reside minha grandeza. Acobertada e escondida pelo medo de ser exatamente do tamanho que se é.

véspera

O que se faz enquanto se espera algo que sabes grandioso? Cada minuto que passa vou deixando para trás o que não poderei levar comigo. Desculpem pela falta de despedida, mas como ela me disse outro dia: a gente não precisa se despedir daquilo que é nosso. Isso fica com a gente pra onde se for e pra o que se vier a ser.

sexta-feira, julho 13, 2007

intensidade

Era tanto amor que, em devaneio, entrou no chuveiro de meias nos pés.

quinta-feira, julho 12, 2007

obrigada

Giulinha voltou pra mim!

quarta-feira, julho 11, 2007

triste

Giulinha, volta pra mim!

segunda-feira, julho 09, 2007

"torvelinhai, torrentes do ar"

Oh, torvelinho de idéias! Faz da imobilidade lugar pra vendaval. Pirraceiro, contradiz minha nobreza. Foges da calmaria, preferes pão e cheiro de café.

domingo, julho 08, 2007

cor-de-rosa antigo

Percebeu que, por pura falta de entendimento, prendeu a alma de uma pessoa à sua vida. Era novinha e aprisionou a alma de um homem à sua. Julgava que ele fosse seu. Não era. Era outro o seu homem. Escreveu, então, um bilhete. Dobrou-o bem dobradinho e deixou-o no banco do metrô.
Mais tarde alguém lia:

"Te liberto para seres o que és. Exatamente do teu tamanho. E desejo sorte".

De qualquer forma a mensagem teve serventia.

sexta-feira, julho 06, 2007

teste

Era uma vida sem volta. Cada escolha, um salto pra novidade.

Era uma vida de ficar esquecido no teleférico no meio da neve como uma vez me contaram. A neve cortava seus lábios ressecados e o teléferico se fazia parado para que uma atitude fosse tomada. Era um salto sobre as montanhas geladas. O risco de cair num pedaço de rio congelado e se tornar geleira para todo o sempre. Era como encontrar um alfinete no fundo da gaveta quando se precisa dele, essa era a vida daquele homem.

Esquecido no teleférico, esquecido no dia-a-dia. Como se com esses pequenos e fatais acontecimentos, ele tivesse que lembrar à natureza a todo instante que também existia. Existia e sua trivialidade se fazia de dias extraordinários. A inconseqüência era comum a ele, mas ele mesmo não era inconseqüente.

Como se ali, parado e quase congelado, tivesse que provar e merecer sua existência. Seus dias eram de encontros perigosos com leões ferozes a toda hora. Sabia manter a calma, não se assombrava, tudo aquilo fazia parte de sua condição nunca antes imaginada.

Ali, sozinho, a escuridão chegou. E a neve, cada vez mais espessa o provocava para que fizesse alguma coisa. Ele fechou os olhos e se preparou para saltar em direção ao inesperado.

Do céu se ouviu então uma imensa gargalhada de um deus gordo e espirituoso. E a noite se fez dia e a imobilidade do teleférico se fez movimento. Agora, deus celebraria seu filho com uma grande taça de vinho.

quarta-feira, julho 04, 2007

um pouco mais

Bem vindo mês de julho. Nós faça felizes!

método

Por um lapso não conseguia lembrar se havia tomado o remédio. Não teve dúvidas: abriu a tampa, despejou as pílulas uma a uma e contando quantas ainda haviam entendeu o acontecido.

segunda-feira, julho 02, 2007

omaggio

Bandiera nera la vogliamo: No!

Perché l’é il simbolo della galera

Bandiera nera la vogliamo: No!

Bandiera bianca la vogliamo: No!

Perché l’é il simbolo dell’ignoranza

Bandiera bianca la vogliamo: No!

Bandiera rossa la vogliamo: Si!

Perché l’é il simbolo della riscossa

Bandiera rossa la vogliamo: Si!

Para meu pai que tanto dançou com suas filhas essas inesquecíveis canções italianas.
Avanti popolo alla riscossa!

sábado, junho 16, 2007

mentora

Mas fala comigo e me leva pro abismo. Não ligo. Vem, aparece e mexe com tudo o que outrora foi construido. Deixo você falar por minha boca. Deixo que as árvores caiam e a tempestade derrube o que tem que cair. Agora assim acordada, não tenho medo. Vem e me mostra teu machucado: tiramos o espinho uma do dedo da outra. Chupo teu sangue com amor. Te espero com rosas cor-de-rosa e suéter vermelho. Até pinto a boca de batom escarlate - você vai rir porque nunca soube falar com a boca pintada de batom. Vem que te faço sopa de beterraba - estou craque no trato com a panela de pressão - e só tomaremos meia porção. Pode entrar pela fresta da janela que agora sem medo, eu te espero. Sei que tua tristeza era das mais felizes.

o livro das mutações

De verdade, há o caminho do meio. Perceber é fácil, difícil é ter coragem de segui-lo. E saravá.

sexta-feira, junho 15, 2007

nome duplo

Mas se para ser um é preciso ser tantos, me faço pássaro e cavalo. Pluralizo a mim mesma para ser realmente singular.

criança

Ela tinha razão: não era celular, era passarinho!

argila

Quando viu estava entre eles. Jogada na terra, rastejava. Suas mãos acariciavam o barro, seu rosto pedia para que se pintasse de terra. Brincava com formigas, tatu-bolas e minhocas. Uma música a levava até o chão. Entendeu: era cobra, lagarto, chã-de-dentro e chã-de-fora.

segunda-feira, junho 11, 2007

11 de junho

Hoje é aniversário deles. Servirei atum. Para beber, um pouco de leite fresco. Deixarei que afiem as unhas no sofá e saiam um pouco pra passear. Não pude dar-lhes o presente que me pediram, seria cruel e, além do mais, não posso ver sangue.

par

Ele gostava de falar. Ele lia, lia muito e falava sobre os livros que lia. Ele via, via filmes e falava sobre os filmes que via. Ele ouvia, ouvia músicas e falava sobre as músicas que ouvia. Ele praticava, prativa esportes e falava sobre os esportes que praticava. Ele era só.
Ela era só. E sabia que os ouvido são onipresentes. Ouvidos não têm escolha, não se fecham como os olhos ou como a boca. Então, ela ouvia. Ouvia sobre livros, filmes, músicas e esportes.
Eram a perfeição.

verbo

Sou e estou. Não ao mesmo tempo. Ser é consistir. Estar é circunstância. Gosto de sentir na língua a possibilidade de transformação: não sou, estou.

sexta-feira, junho 08, 2007

corpo do texto

Toda palavra é gesto. E frases, passos de dança.
Quero escrever como quem dança e dançar como quem escreve.

terça-feira, junho 05, 2007

"acordei que sonhava"

Leu que para os hindus, o universo é o sonho de Deus. Ele o está sonhando e nós somos parte do Seu sonho. Então era isso, ela não passava de imaginação! Olhou para cima e pensou toda cheia de si: mente criativa a do Senhor.

segunda-feira, junho 04, 2007

carta a uma pessoa querida

Aqui o amor se faz causa e conseqüência. Aqui amar é telepatia e ideologia. Amou fulano, cicrano, beltrano. Amor, aqui, não é vermelho; é lilás. Há algo de apaziguado nesse amar. Não sabe viver se não for para derramar seu amor. A liberdade já chegou, mas ela não sabe o que fazer com ela. É liberdade demais não precisar cuidar de ninguém. É liberdade demais cuidar de si. O luxo da solidão está pedindo pra entrar. Ela abre a porta com um pouco de receio ainda. É tão grande e tão linda que pode ser muito para ela. Um grande susto! É perigoso: de repente ela se vê e descobre o mundo. Aliás, a sua volta todos já perceberam e esperam dela brindes e fogos de artifício. Mas calma lá minha gente! Há dor também e é imensa. Há medo e há uma criança frágil que ouviu histórias demais e se assusta com o sobrenatural do que se conta. Ela precisa de colo e precisa se dar colo. Agora é ser inteira e assumir que às vezes a gente assusta e pisa na ferida dos outros e não tira o espeto da pata do urso. Todos esperam muito dela. E eu sei que ela é muito mais do que qualquer pensamento possa conceber: é muito maior e muito menor. É riso. É lágrima. Força e melancolia. Há uma parte dela com vontade de nascer e há outra que tem medo do que possa vir. Mas o primeiro sim já foi dado. E se seguirá de tantos sins e tantos nãos hão de vir. Doa a quem doer.

intrépido garçom

Ele arriscou seu emprego para me dar um bolo de banana. Furou o bloqueio das iguarias, burlou seu chefe e trouxe a minha mesa o lindo pedaço. Corajoso, agiu com o coração. Tudo para que eu não pagasse o abusivo preço do buffet. Merci mon garçon! Je ne vous oublie pas!

journey in satchidananda

Hoje deixei de ser peixe e pássaro e voltei a fazer escavações. Agora me aventurarei no reino das letras e das flores de lótus. Lembrei o caminho de casa. Quando quiser faço visita.

sábado, junho 02, 2007

menina azul

Do outro lado do mundo vive uma menina-azul que vê o mundo com olhos que até poderiam ser meus.
É só clicar que ela aparece.

impressionismo

Era uma história tão perfeita que não cabia impressão dentro dela. Estava tudo ali, pronto e acontecido. Já era fantástica na sua realidade. Havia nela os encantamentos que a imaginação cria e tinha até senso de humor. Tão estupidamente boa que não tinha graça em se transformar em escita com ponto, vírgula e final surpreendente.

sexta-feira, junho 01, 2007

minha avó é uma sereia

Ela era cabeleireira e também é minha avó. Morávamos bem pertinho. Prédios colados que facilitavam a livre expressão de nossas hereditariedades italiana e espanhola: quando queríamos falar uma com a outra era só ir até a janela e gritar sonoramente uma pela outra.
Ir a casa dela era fácil e eu adorava. Podia chegar lá sozinha sem interferência de pai ou mãe. E passava lá quase todas as tardes. Ela deixava (e ainda deixa) que eu mexesse em suas bijuterias, perfumes e, por vezes, até abria seu território sagrado, onde ficavam muito bem guardados os casacos de pele de minha bisavó.
Minha Julieta (esse é o nome dela) é das pessoas mais vidosas que conheço e quando minha mãe era pequena, era dona de um salão de beleza que funcionava em sua própria casa mesmo.
Nas tardes em que passavamos juntas, vez por outra, ela pegava a tesoura e cortava um pouquinho meu cabelo. Minhas visitas eram frequentes e para desespero de minha mãe, os cortes também! Uma franjinha aqui, uma costeleta acolá, uns três dedinhos a menos, um curto radical e minha vida capilar era a mais movimentada dos meios infantis por onde andava.

o certo é ser gente linda e cantar, cantar, cantar

Om namah shivaya

quinta-feira, maio 31, 2007

breve saberás

Um pé que me leva pra onde quer, outro que me tira do chão. Sigo os sobressaltos da vida sem muito planejamento e com um pouquinho de vertigem. Surpresa inesperada que me leva pra onde eu queria e não sabia.

ilustre (des)conhecido

Entramos no mesmo vagão. Mesmo de costas um para o outro, nos percebíamos ali. Sabia exatamente como eram seus traços e ele conhecia os meus. Sem ao menos nos olharmos de frente, eramos como irmãos separados no leito materno. O momento do meu desembarque chegou. Ao sair dali sentia que seus olhos acompanhavam meu caminho. Olhei pra trás e lá estavam eles: os dois olhos verdes, que conhecia muito bem sem nunca tê-los encarado antes, acompanhavam minha saída. Sorrimos um para o outro e nunca mais nos vimos.

ilustre desconhecido

Queria ver seu rosto. O rosto dele ficou por detrás da árvore e meu carro passou.

segunda-feira, maio 28, 2007

experimento cientifico

Se eu tirar o que me identifica o que é que fica? Se sai a profissão, o medo, a ansiedade, o que é que fica? Se deixar de tomar leite com café toda manhã e comer pão com requeijão, se sumir do mapa e desligar o telefone; o que fica? Se quando andar na rua não desviar dos bueiros e não tocar nas flores vermelhas que parecem pom pom de team leader, o que fica? Se parar de gratinar a abobrinha, o que fica?

Rasgada assim, gosto do que vejo.

sábado, maio 05, 2007

tropeço

Cansei de moral da estória. Alguém acredita nisso depois de Nasrudin?

quarta-feira, abril 18, 2007

dona benta

Elas estão ali. Cheias de palavras para fortalecer gente grande: são as amigas da terceira idade, que juntas, se divertem. Dividem experiências culinárias e frases de livros de auto-ajuda. São irritantes. Esbanjam suas felicidades desafinadas. Ali, bem perto de mim, com suas caras de pó-de-arroz, a ironizar minha feminilidade ansiosa. Depois do nosso breve encontro de elevador, as três seguirão contentes a perfilar seus lares de toalha de renda. Invejo a hora de almoço delas e o descompromisso com a humanidade que elas têm. Queria eu poder, de vez em quando, esconder minha aflição em prendas domésticas. E só me preocupar se o frango ficou bom ou não.

Amigas, sei que vocês também são aflitas e que às vezes o frango queima também.

sábado, abril 14, 2007

norma jean baker

Despreparo.
Falta de habilidade.

Ofereço dúvidas.

Este não texto tem vontade de se expor. Obedeço. Mas peço desculpas, porque ainda quero que gastes teu tempo comigo. Minha fragilidade se faz e desfaz em desculpas. Na verdade, queria mesmo ser Marilyn Monroe.

Embora saiba que mesmo Marilyn, era no fundo Norma Jean Baker.

domingo, abril 01, 2007

perna curta

MENTIRA

quarta-feira, março 21, 2007

manoel de barros

"Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução".

cuspirei sangue

Vou roubar um acontecimento. Furtarei um fato da vida de outra pessoa: vou pegar, morder, moer e jogar o resto fora. Vou pisar, chutar e cuspir no que não me servir. Não me engasgarei mais, cuspirei sangue. Sem piedade ou autocomiseração. Vou furtar gestos, palavras, fotos e lembraças. Vou amar o marido das outras. Pisarei em todas as amantes. Sacrificarei meu semelhante por um anel de ouro ou diamantes. Passarei nota falsa. Venderei gato por lebre. Serei a rainha dos inescrupulosos. Passarei a perna em todos os meus. Distribuirei rasteiras. Atropelarei velhinhos. E finalmente, ficarei devendo na venda.

agridoce

No rosto uma enorme cicatriz. No peito a bandeira do Brasil. Usa uma capa dessas de farmacologista, nela está escrita uma frase de parachoque de caminhão; algo como, "miséria boa é miséria de pobre". Nada de "eu amo minha mulher", o tom é outro. Nas mãos uma serra elétrica. O avental está sujo de sangue. Há suor em seu rosto. Seu cheiro é ruim. É sujo. É feio.

Já foi, e ainda é, em parte, bailarina de bolo de aniversário. Mas a bailarina segura, lá no fundo, uma serra elétrica que tira sangue de quem passar pelo seu caminho.

quinta-feira, março 15, 2007

rastreada por satélite


sábado, março 10, 2007

aurélio

Obrigada Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, por dar signo à minha vida!
Tantos significados bonitos! Torpor, por exemplo, pode significar "indiferença ou inércia moral" e ainda "ausência de resposta a estínulos comuns".

Aurélio, i love you!

Acordava angustiada. Sofria de nó na garganta pela manhã. O mundo era muito coberto para uma pessoa como ela. Vivia a crueza dos virados do avesso. Um gesto, um passo, tudo tinha que ser muito bem pensado. A vida para ela era fatal. Escolher não era um ato aleatório. Um passo em falso e o nó aumentava. Lavar a louça ou sair pela rua? Não vivia impunemente, seus atos eram experiências. Tinha de negociar com Deus, pedia para viver à prestação.

quarta-feira, março 07, 2007

não sei

Será que algum dia saberei dizer "não sei" como ela dizia?
Um "não sei" sem olhar para trás e sem medo do que um "não sei" possa causar.

terça-feira, março 06, 2007

breve bem próximo de mim


segunda-feira, março 05, 2007

giuseppe

Ele que nasceu na cidade de Borgia e veio parar no interior de São Paulo. Ele que não conseguia falar português e por isso ficava quieto. Ele que nasceu no mesmo dia que eu. Ele que é meu bisavô. Dele é tudo que sei.

cabeça feita

Saimos na rua e compramos chapéus. Eu, um vermelho escarlate para andar distraída; ele, comprou dois, um para sair por aí e outro para abraçar o mundo.

o homem mais misterioso do mundo

Meu avô falava pouco. Minha maior recordação dele é que tudo e todos paravam para que ele assistisse Charlie Chaplin na televisão.
Logo descobri que gostar de Chaplin era uma maneira de me aproximar dele, então ria alto com as trapalhadas de Carlitos para que todos, e principalmente ele, soubessem que o programa também me agradava.
Lembro que no último Natal que passamos juntos, ele rompeu a barreira de seu solene silêncio, e dançou break por horas a fio.

Detalhes que contam quem era meu avô: ele tinha um despertador vermelho e uma estátua de um menino jornaleiro, não tirava seu roupão azul-marinho, torcia para o Palmeiras e desenhava muito bem.

Minha avó fazia deliciosas comidas para festejar meu avô. Íamos sempre almoçar na casa deles e para beber tinha sempre água tônica, que eu detestava e achava uma bebida fracassada. Meu pensamento de criança não concebia que um quase-refrigerante-de-adulto fosse tão sem graça e sem gosto!
Um dia, numa manhã de final de semana, meu pai chegou abatido e disse que o "vovô Tó" tinha morrido. Ouvi a informação sem muito entender e voltei a brincar. Só que a partir daquele dia, a brincadeira mudou, brincava de procurar meu avô pelas ruas por onde passava. Nisso não havia morbidez, era um pensamento simples e objetivo: precisava encontrar meu avô que tinha desaparecido. E nessa procura havia o pragmatismo de uma criança com um forte objetivo.
Só o encontrei anos mais tarde reassistindo aos filmes de Chaplin. Aliás, tenho até hoje a sensação infantil de que meu avô é o próprio Charlie Chaplin.

domingo, março 04, 2007

anunciação

Acontecia toda vez, um quase acidente sublinhava detalhes de sua vida que anunciavam coisas futuras. No momento em que os vivia nunca os percebia, mas anos ou meses depois o rastro era revelado.
A rua de sua nova casa era casualmente a mesma em que, sete anos antes, quase fora atropelada.
Outra vez ficara presa num elevador por mais de duas horas. Um ano depois aquele mesmo elevador tornou-se trivial, o meio de chegar ao apartamento 51, onde morava M. P.
Um dia teve uma vontade repentina de comprar um cacho de bananas na Rua do Ouvidor. Essa vontade soou-lhe estranha, morava sozinha e jamais conseguiria comer tudo aquilo. Com a carteira na mão, prestes a pagar pelo cacho, foi roubada. Teve medo; percebeu o que ocorria.
A partir daquele dia, toda vez que passava pela Rua do Ouvidor, observava cuidadosamente o chão por onde seguia e desviava com destreza de cascas de banana.

sábado, fevereiro 17, 2007

definitivo

O último que vi e melhor cartaz sobre o homem: "Acredito em Deus e na justiça brasileira".

sem preconceitos

Na rua vi escrito, "Jesus: católico ou evangélico".

do grotesco ao sublime

Vi uma senhorinha de meia de naylon, muito velhinha e feliz, distribuir sorrisos e folhetos de planos de saúde.

intervalo

Tanta ação no dia-a-dia me deixa sem inspiração. Como cavalo aparementado só sei olhar o que está a minha frente. Sou segmentada. Para dizer um sim, digo nãos a muitas coisas. Maldito signo que não me deixa olhar o horizonte! Tenho o olhar fixo e subterrâneo.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

pergunta ao açougueiro

-Você tem coração?